Nota do editor: este artigo é um resumo do artigo do Robert Parry, publicado no «Consortium News» [1]


Ser aceite nos corredores de Washington implica aceitar pontos de vista falsos ou hipócritas. A verdade não tem particular valor; a adesão ao pensamento de grupo sim.

Por exemplo, é preciso aceitar que as mortes ordenadas pelos presidentes dos EUA são diferentes das mortes ordenadas pelo presidente da Rússia. «As nossas» são boas e justificadas; as russas são más e criminosas. Quem sugerir o contrário é uma marioneta de Moscovo perigosa, que tem de ser marginalizada ou domada.

Actualmente, o presidente Trump está a ser castigado por Washington, por ter reagido de forma inapropriada a uma questão do Bill O’Reilly, na Fox News, que qualificou Putin como «um assassino». A sua resposta — de que os EUA também não são inocentes — suscitou irritação no próprio jornalista [2].

Apesar do Donald Trump ser justamente criticado pela sua relação difícil com a verdade [3], desta vez, ele estava a dizer a verdade; e foi condenado por isso — no fundo, por exigir do governo norte-americano os mesmos padrões éticos aplicados ao governo russo.

Não é a primeira vez que isto acontece: quando os grupos de defesa dos direitos humanos questionaram a política de Reagan em relação ao assassínio de dissidentes políticos na América Central, a resposta desenhada pelos peritos de propaganda norte-americanos foi também a de que os EUA eram diferentes dos governos autoritários de esquerda.

A verdade inconveniente é que todos os líderes dos grandes países e muitos líderes de pequenos países são «assassinos». O antigo presidente Barack Obama ordenou ataques militares em sete países diferentes, para matar pessoas. O seu predecessor George W. Bush lançou uma guerra ilegal contra o Iraque, baseada em alegações falsas, causando a morte de milhares de iraquianos. O presidente Bill Clinton ordenou o bombardeamento da televisão sérvia, em Belgrado, porque a sua «propaganda» não estava de acordo com a propaganda norte-americana. Quando era presidente, o pai do George W. Bush massacrou civis tanto no Panamá como no Iraque. A lista continua; é difícil encontrar um presidente dos EUA que não tenha infligido a morte a inocentes como parte duma missão «justificada» ou não.

Mas a imprensa norte-americana tem um duplo padrão na avaliação dos actos dum presidente dos EUA e dos dum inimigo: quando os EUA matam pessoas, a comunicação social racionaliza o ataque; e faz o contrário, quando o ataque é autorizado por um líder estrangeiro demonizado.

É o que se passa, actualmente, com Putin: qualquer acusação é tomada por credível, mesmo que sem provas; e qualquer alegação de inocência é ridicularizada ou suprimida. Por exemplo, recentemente, um documentário sobre um alegado assassinato dum delator russo que, afinal, era um criminoso que morreu de causas naturais, foi boicotado pelas cadeias de distribuição cinematográfica. Por outro lado, ninguém pede provas, quando se fala das «mortes misteriosas» na Rússia; toda a gente aceita que o presidente Putin tem de estar implicado. Tal como toda a gente aceitou, sem exigir provas, que o casal Clinton estaria implicado nas «mortes misteriosas» relacionadas com «escândalos» no Arcansas.

Enquanto líder duma nação poderosa que enfrenta ameaças terroristas, Putin é certamente um «assassino», tal como os presidentes dos EUA o são — e foi isso que o Donald Trump disse. Mas dizer esta verdade óbvia não granjeia louros em Washington. Pelo contrário, dá direito a castigo, mesmo que se seja o presidente.