Por Gustavo Martins-Coelho


Fala-se muito do progresso médico, dos avanços na cura das doenças, seja com cirurgias cada vez mais delicadas, seja com medicamentos cada vez mais potentes, mas a verdade é que a grande revolução na saúde assentou em três pilares de que muito pouco se fala.

O primeiro foi a revolução agrícola do século XIX, que permitiu garantir alimentos para todos (pelo menos na Europa, porque ainda hoje se morre vergonhosamente de fome no mundo, apesar da Terra produzir alimentos suficientes para toda a população humana a nível mundial [2]). Alimentos para todos significou deixar de se morrer à fome, deixar de se sofrer de doenças relacionadas com a malnutrição e ter defesas reforçadas para combater todas as outras doenças em geral. Menos doenças significou mais saúde; e isto teve um impacto tremendo, muito maior do que qualquer tecnologia médico-cirúrgica moderna.

O segundo foi o saneamento básico. Saneamento não diz só respeito às tubagens que levam as nossas águas residuais para as estações de tratamento; é o conjunto de procedimentos relacionados com a higiene ambiental de onde as pessoas vivem: inclui a construção e a manutenção de fossas sépticas, de colectores e de estações de tratamento de águas residuais, a recolha dos resíduos sólidos, a limpeza da via pública, o controlo de pragas, etc. O saneamento básico conseguiu uma coisa muito importante: garantir que a água que nós bebemos não está contaminada com bactérias e outros micróbios capazes de nos porem doentes. Como todos bebemos água, esta medida cortou milhares de doenças, evitando epidemias que eram recorrentes, antes do advento do saneamento básico — e que mesmo hoje ocorrem, em locais onde os serviços responsáveis falham, por exemplo, em situações de catástrofe.

E o terceiro foram as vacinas, de que tenho vindo a falar nas últimas semanas [1]. As vacinas, sozinhas, salvaram provavelmente mais vidas do que todas as restantes tecnologias médicas juntas, antibióticos incluídos! Todavia, subsistem pessoas que duvidam das vantagens da vacinação, apesar de todas as provas irrefutáveis. Vamos então, a partir da próxima semana, responder às questões mais frequentes, uma por uma.

Para já, vamos terminar com o objecto do dia, que hoje é uma coisa que eu vejo muito nos filmes americanos, mas pouco cá em Portugal, e que me intrigava muito, até estudar o assunto. Nos EUA, é frequente as casas terem duas portas: uma de madeira, ou de metal, como nós cá temos, e outra de rede metálica. Eu perguntava-me para que servia essa rede: serve para manter as moscas, os mosquitos e outros insectos voadores no exterior. Por cá, a coisa mais próxima que temos são aquelas cortinas de fitas de plástico, que se vêem nalgumas portas da cozinha.

Até isto ser inventado, o que se usava era a chita, ou melhor, o morim, que lhe dá origem e serve para embrulhar o queijo, mas não era uma boa solução, porque o material era delicado e rasgava com facilidade. Então, durante a guerra civil norte-americana, uma fábrica de coadores começou a vender coadores do tamanho de portas, para manter os insectos fora de casa.

Hoje em dia, estes painéis servem como a primeira defesa contra os vírus que são transmitidos por mosquitos, como sejam os do Nilo ocidental, dengue, febre amarela e zica [3]. A instalação destas redes será, no futuro, provavelmente olhada como tão importante como a vacinação, o saneamento básico e a revolução agrícola na melhoria do estado de saúde da população mundial.