Por Gustavo Martins-Coelho


Tudo o que eu disse nas últimas crónicas sobre vacinas [1] culmina hoje com a discussão e a desmontagem dos mitos mais frequentes sobre vacinas, mitos esses que levam algumas pessoas a preferir não se vacinarem, ou a não vacinarem os filhos.

A primeira dúvida tem que ver com a necessidade de vacinar repetidamente contra a mesma doença. Se as vacinas garantem imunidade, por que é preciso tomar a mesma vacina mais do que uma vez? Esta é, provavelmente, a única pergunta que faz sentido, das várias que vou discutir aqui, porque, realmente, vai contra o senso comum. Todas as outras são perguntas baseadas em afirmações falsas, que geram a dúvida e a confusão. Então, a razão por que é preciso repetir a mesma vacina depende. Nalguns casos, a imunidade não é permanente, por diversas razões, algumas das quais nem sequer estão perfeitamente compreendidas, e é por isso que é preciso reforçar a vacina. Noutros casos, como é o caso da gripe, o vírus contra o qual se vacina modifica-se e deixa de ser reconhecido pelo sistema imunitário [2], pelo que é preciso vacinar outra vez contra o novo aspecto que ele apresenta. É como se a vacina fosse uma fotografia do criminoso procurado pela polícia e o criminoso fizesse uma operação plástica: a polícia precisaria duma fotografia nova para o identificar.

A segunda pergunta é das que não faz sentido: ah, e tal, porque as vacinas causam autismo. Falso, totalmente falso! Repita comigo: as vacinas não causam autismo; as vacinas não causam autismo; AS VACINAS NÃO CAUSAM AUTISMO! O que aconteceu foi que um senhor, que por acaso era médico (mas, se pode acontecer um primeiro-ministro ser desonesto, por que não pode suceder o mesmo com um médico?) — esse senhor fez um estudo em que relacionava uma vacina em particular com o aparecimento de autismo. Primeiro problema: ele demonstrou, supostamente, que uma vacina provocaria autismo. Todas as outras, à luz desse estudo, continuariam a ser seguras. Portanto, exclusivamente com base nesse estudo, dizer que as vacinas provocam autismo continuaria a ser falso. Mas a coisa piora: os dados do estudo eram manipulados; foram recolhidos nos amigos do filho, a quem ele tirou umas amostras de sangue na festa de aniversário do miúdo; e o estudo destinava-se a descredibilizar aquela vacina em particular, para lhe permitir ganhar dinheiro com uma vacina alternativa, concorrente, que ele tinha patenteado. Como sempre em ciência, sucederam-se montes de estudos que não conseguiram replicar o resultado desse primeiro estudo e, quando este cambalacho todo foi descoberto, o estudo original em causa foi retractado e o autor perdeu a licença para exercer medicina. O problema é que, por essa altura, meia dúzia de celebridades desinformadas começaram a lançar a moda de manter as crianças «puras» e longe de «químicos» e o autor do estudo tornou-se um mártir da causa — um homem que perdeu tudo, por dizer a verdade; quando, na verdade, não passava dum charlatão que queria ganhar dinheiro à custa dum esquema, em tudo semelhante a muitos outros esquemas desonestos que por aí abundam.

Por hoje, ficamos por aqui no que diz respeito às vacinas, mas, antes de terminar, como já vem sendo hábito, vamos falar do objecto do dia. Para hoje, escolhi o mosquiteiro.

O mosquiteiro é o substituto dos painéis de que falei na semana passada [3], nos países onde esse tipo de painéis são incomuns ou demasiado caros para o rendimento médio da população. Os mosquiteiros são redes de algodão, polietileno, poliéster, polipropileno ou nylon tratadas com insecticida e servem para proteger contra os mosquitos que transmitem a malária, a dengue, a infecção pelo vírus zica [4] e outras infecções do mesmo género.

A principal vantagem dos mosquiteiros é que são muito baratos, cerca de €2,50 cada, e duram três a quatro anos. Isto confere-lhes uma boa relação custo-benefício, tornando-os o material de eleição para a distribuição generalizada em países de baixo rendimento, onde as doenças transmitidas por mosquitos são uma ameaça significativa. Nas regiões com elevado risco de malária, os mosquiteiros podem reduzir a transmissão aos humanos em cerca de noventa por centro, o que não é nada mau.

Infelizmente, nem toda a gente que precisa tem um mosquiteiro. As organizações de saúde globais continuam o seu trabalho, no sentido de fazer chegar mosquiteiros a todas as pessoas que precisam deles.