Por Gustavo Martins-Coelho


Prosseguindo com o tema dos mitos associados às vacinas, depois do autismo [1], os ingredientes. Como eu expliquei em tempos, as vacinas servem para mostrar ao organismo um micróbio, permitindo-lhe preparar as suas defesas contra esse micróbio.

«Mostrar um micróbio ao organismo» significa introduzir no organismo esse mesmo micróbio, vivo (mas atenuado, de modo a não provocar doença), ou morto, ou então partes dele.

Portanto, é natural que, na lista de ingredientes da vacina contra a tuberculose, por exemplo, apareça indicado o bacilo da tuberculose. Isso não quer dizer que estejamos a provocar tuberculose nas pessoas, porque é um bacilo atenuado, incapaz de provocar doença. Por exemplo!

Mas a lista é mais comprida do que isso e, como as pessoas tendem a ter medo do que não conhecem, uma lista extensa de nomes complicados mete medo.

Todas as substâncias que compõem uma vacina estão lá por uma razão. Por exemplo, o timerosal, que foi inicialmente atacado como sendo a causa do autismo que as vacinas, afinal, não provocam, actua como conservante. É activo contra os fungos e permite que o mesmo frasco contenha várias doses de vacina e não se estrague logo depois de aberto. Problema: o timerosal contém um átomo de mercúrio e toda a gente sabe que o mercúrio é tóxico. Aliás, até foi por isso que os termómetros de mercúrio foram abandonados e agora são todos electrónicos.

Mas não é bem assim. O mercúrio, como qualquer elemento químico, apresenta propriedades diferentes, consoante a molécula em que está inserido. É como o sal de cozinha: é composto de sódio e cloro. Na escola, os meninos mal-comportados sempre encontram uma forma de roubar algum sódio no laboratório, durante as aulas de Química, e o despejar na sanita do quarto-de-banho mais próximo. Consoante a quantidade, já houve sanitas a explodir. E o cloro é o que põe os olhos vermelhos, quando vamos nadar na piscina, além de que dá o sabor a lixívia à água da torneira. Ambos elementos tóxicos e altamente reactivos e, no entanto, perfeitamente inócuos, quando usados combinados como tempero, numa molécula de sal. Se tem medo das vacinas, pela mesma ordem de ideias, devia deixar de temperar a comida.

O mesmo se passa com o timerosal: o mercúrio, aí, está sob a forma de etilmercúrio, que é inócuo: entra e sai do organismo sem reagir com absolutamente nada. Já o metilmercúrio é tóxico; e sabe o leitor onde há metilmercúrio? No atum. Se acha que as vacinas são tóxicas, deve deixar de comer sushi. Só para ser coerente.

Mas sabe que mais? Já não se usa mercúrio nas vacinas há mais de dez anos! Portanto, toda esta conversa é irrelevante! Mas sabe o que aconteceu, depois que se deixou de usar mercúrio — timerosal — nas vacinas? O número de casos de autismo continuou a aumentar (o que provavelmente está somente relacionado com maior consciência dos pais e dos médicos, o que faz com que muitos casos que passavam ao lado agora sejam diagnosticados) e os preços das doses de vacina subiram, aumentando os custos dos serviços de saúde, em particular nos países de menor rendimento, onde este custo aumentado coloca em causa os programas de vacinação.

Para terminar, como já vem sendo hábito, vamos ao objecto do dia. Hoje, volto a falar dum utensílio relacionado com o controlo de insectos: o mata-moscas.

O mata-moscas nasceu directamente dum esforço de saúde pública nos Estados Unidos e é o exemplo duma resposta de baixo custo e sem químicos contra a propagação das doenças. Na viragem do século XX, antes da criação das vacinas e quando o saneamento era uma realidade ainda relativamente restrita, o Secretário da Saúde do Kansas, nos EUA, lançou uma campanha contra as moscas, que, à data, eram portadoras de doenças infecciosas, tais como a cólera, a febre tifóide e outras. As autoridades de saúde apelaram às pessoas que protegessem as suas casas com painéis mosquiteiros [2] e para matarem as moscas que vissem por perto. No seguimento desta campanha, uma equipa de escuteiros do Kansas pregou pedaços desses painéis a metros de madeira e construiu assim os primeiros mata-moscas, que foram distribuídos gratuitamente na Feira do Estado do Kansas, noutras feiras locais e em eventos um pouco por todo o estado.