Por Gustavo Martins-Coelho


Vamos hoje falar mais um pouco de vacinas. Na semana passada [1], iniciei a questão dos ingredientes que compõem uma vacina, para explicar que não só o mercúrio, na forma química existente nas vacinas, não faz mal nenhum, como, além disso, há mais duma década que não há, sequer, mercúrio em nenhuma vacina.

Hoje, continuo a falar doutros ingredientes, nomeadamente o ácido hidroclórico. Uma pessoa ouve falar em ácido e pensa imediatamente em cenas de filmes, com ácidos a dissolverem tudo à sua passagem (excepto a personagem principal, claro está). Mas os ácidos são componentes normais do mundo. Nós temos, no nosso estômago, um dos ácidos mais fortes que existem no mundo — o ácido clorídrico — e estamos bem vivos. Somos nós que o produzimos e vivemos bem com ele. Também produzimos ácido úrico e eliminamo-lo através da urina, sem que daí advenha grande mal, desde que não se acumule em demasia. Et caetera!

Só que o mundo não se faz só de ácidos. Há também as bases, como a lixívia, por exemplo, que também não são muito boas para a saúde. Uma propriedade curiosa é que um ácido e uma base, quando juntos, anulam-se; e é por isso que as vacinas têm ácido — para anular as bases que as compõem.

Além disso, é tudo uma questão de dose. Lá diz o povo que «veneno, que é veneno, em pouca porção não mata»; e até a água, que não faz mal a ninguém, pode matar, em excesso. Em 2007, uma mulher morreu por beber seis litros de água em três horas. Acontece que todas as substâncias que integram a composição duma vacina estão muito dentro das doses permitidas pelas autoridades. Incluindo o formaldeído, que também faz parte das vacinas, como conservante, e, embora seja tóxico, é um composto natural, produzido pelo nosso organismo no seu metabolismo. A verdade é que o leitor produziu mais formaldeído enquanto leu este texto do que alguma vez irá receber por via das vacinas.

Depois, há as mentiras. Já ouvi dizer que as vacinas contêm líquido anticongelante dos carros, rins de macaco e tecidos de bebés que abortaram. A isto, só posso dizer: a sério??

Termino, como de costume, com uma referência ao objecto do dia, que hoje é o caranguejo-ferradura. É um ser vivo, não um objecto, decerto, mas, para o efeito aqui pretendido, acaba por ir dar ao mesmo. O que é certo é que todos nós devemos estar gratos ao caranguejo-ferradura, que, além de já viver na Terra há 450 milhões de anos, nos tem doado o seu sangue para extrair um factor de coagulação que é usado para testar a segurança de tudo o que entra em contacto com o corpo humano: vacinas, agulhas, pacemakers, fármacos endovenosos e diverso equipamento médico. A substância extraída do caranguejo-ferradura é sensível e, portanto, capaz de detectar a mais pequena quantidade de bactérias mortais, de modo que é capaz de isolar uma ameaça equivalente a um grão de areia numa piscina olímpica!

A importância do sangue do caranguejo-ferradura foi identificada pela primeira vez pelo cientista Frederik Bang em 1956. Nos anos setenta do século passado, a FDA norte-americana, tornou o teste Limulus, assim chamado por causa do nome científico do género do caranguejo-ferradura, obrigatório na indústria médica. Desde essa altura, o teste permitiu impedir milhões de pessoas, a nível mundial, de contraírem infecções extremamente perigosas, ou mortais.

Na actualidade, os cientistas continuam a procurar uma alternativa ao sangue azul destas criaturas (sim, o caranguejo-ferradura tem mesmo o sangue da cor azul), por motivos de preservação biológica. Anualmente, são capturados mais de 600.000 caranguejos-ferradura, aos quais é extraído um pouco de sangue e depois são devolvidos ao mar; mas cerca de 20% dos caranguejos, ou seja, uns 120.000 por ano, morrem durante o processo. Junte-se a isto o aquecimento global, que provoca uma alteração do habitat dos caranguejos, e é provável que, dentro dalgumas décadas, já não haja caranguejos-ferradura no mar que possam ser usados pela indústria da biotecnologia.