Nota do editor: este artigo é um resumo do artigo do Arsalan Iftikhar, publicado na «The Bridge Initiative» [1]


Em Outubro, um homem branco atingiu quinhentas pessoas e matou 58 delas as tiro, em Las Vegas, e um imigrante uzbeque matou oito pessoas em Nova Iorque, enquanto alegadamente [2] gritava:

— Allahu Akbar!

O acto do homem barbudo é designado terrorismo, mas o outro matou 625% mais pessoas. Isto é a definição de «dois pesos e duas medidas».

Entre 2011 e 2015, os ataques perpetrados por muçulmanos nos EUA receberam 449% mais cobertura mediática do que os ataques levados a cabo por homens brancos [3]. Embora os muçulmanos tenham cometido 12,4% dos ataques nesse período, foram alvo de 41,4% da cobertura noticiosa (só a maratona de Boston, onde morreram três pessoas, mereceu 20% de todas as notícias sobre ataques terroristas publicadas entre 2011 e 2015, enquanto um ataque supremacista branco a um templo Sikh, onde morreram seis pessoas — o dobro de Boston — recebeu 3,8% da cobertura) [3].

Em 2015, um supremacista branco matou nove fiéis de origem africana numa igreja episcopal metodista, na Carolina do Sul, e admitiu que o seu objectivo era começar uma guerra racial. Os agentes que o detiveram deram-lhe um colete à prova de bala e levaram-no a comer ao Burger King [4]. Imagina o leitor como a polícia da Carolina do Sul teria tratado um muçulmano negro que matasse nove brancos numa igreja?…

Este ataque, com 300% mais vítimas do que a maratona de Boston, recebeu apenas 7,4% da cobertura mediática [3].

Outro ataque supremacista branco com o mesmo número de vítimas da maratona de Boston, ocorrido em Kansas City em 2014, recebeu somente 3,3% da cobertura mediática [4].

Em Novembro de 2015, um cruzado cristão anti-aborto matou três pessoas numa clínica de planeamento familiar no Colorado. Estranhamente, nenhum canal de televisão convidou líderes cristãos para virem a público denunciar o acto como extremismo religioso.

Note-se que o alvo desse ataque era uma clínica difamada por muitos republicanos, que a acusavam de vender «bocados de bebé». O acto teve, portanto, uma forte carga política e religiosa, mas nenhum meio de comunicação social lhe chamou terrorismo.

Em Junho de 2014, um casal matou três pessoas — incluindo dois polícias, sobre cujos corpos colocou bandeiras nazis e do Tea Party — e suicidou-se de seguida, gritando:

— Revolução!

O casal em questão acreditava numa conspiração da autoridade federal [5]. Mas poucos órgãos de comunicação social lhes chamaram terroristas.

O presidente Trump, obviamente, tem também dois pesos e duas medidas. Após o ataque de Charlottesville, em 2017, manteve-se em silêncio e, finalmente, disse que ambas as partes tinham culpa, justificando o silêncio com a necessidade de apurar os factos. Contudo, depois deste recente ataque em Nova Iorque, não perdeu tempo a dizer que era necessário banir os muçulmanos e acabar com o «politicamente correcto».

A frase «Allahu Akbar» é equivalente a «Aleluia» para os ocidentais. Diz-se durante as cinco orações diárias e como interjeição de satisfação com uma coisa boa, tal como os cristãos dizem «graças a Deus» ou «Aleluia». Se não eliminarmos os dois pesos e duas medidas e não começarmos a condenar todos os actos terroristas por igual, a mensagem que estaremos a transmitir é que a palavra «terrorista» significa homem de pele escura e apelido com sonoridade estrangeira que diz «Allahu Akbar».