Por Gustavo Martins-Coelho


Penso que estará claro, por esta altura, que os argumentos contra as vacinas são maioritariamente alarmistas e desinformados, quando não pura e simplesmente falsos [1, 2, 3]. A pergunta, então, é: se está errado, por que continua a haver pessoas contra as vacinas? A acção dos grupos antivacinas é uma corrida contra os factos. Começaram com o autismo [1]; quando a fraude foi desmontada, passaram ao mercúrio [2]; quando o mercúrio (que, em boa verdade, não fazia mal nenhum) foi retirado da composição das vacinas, passaram a dizer que eram demasiadas vacinas numa altura em que o sistema imunitário [4] da criança ainda não estava bem desenvolvido e isso podia ser prejudicial; quando também ficou provado que não havia perigo algum (coisa que ter um mínimo de conhecimento médico básico bastaria para considerar provado, mas fizeram-se experiências para confirmar, na boa-fé de que isso sossegaria os antivacinas) — quando também ficou provado que não havia perigo algum na administração simultânea de vacinas a crianças, avançaram para outros componentes das vacinas [3]; e assim sucessivamente: de cada vez que se prova que não tinham razão numa coisa, atacam por causa doutra (até se provar, mais uma vez, que não têm razão). Agora, parece que a mais recente é o alumínio, mas nem vou falar disso…

Além do alumínio e de todos os outros riscos, outro argumento usado é o da liberdade individual. Dizem que vacinar ou não vacinar não deve ser uma imposição, mas sim uma decisão livre de cada um. Não vou entrar nos detalhes éticos e jurídicos do facto de serem os pais a decidir em nome do filho, por este ser menor, e, no caso de decidirem não vacinar, estarem, objectivamente, a decidir contra o interesse da criança que tutelam. Também não vou entrar na discussão sobre se as vacinas devem ou não ser obrigatórias. Actualmente, não são. Vou somente explicar por que esta decisão, dita individual, é, na verdade, uma decisão que afecta todos. A razão para isso chama-se imunidade de grupo; e, na próxima semana, vou explicar isso em maior detalhe.

Por hoje, fico-me por aqui, para ainda ter tempo de falar do objecto do dia. Seleccionei, para hoje, mais um animal [5]: o rato de laboratório.

Na viragem do século XX, o recém-doutorado em Química norte-americano Elmer McCollum foi encarregue de descobrir por que as vacas alimentadas com milho eram mais saudáveis do que as vacas alimentadas com trigo ou aveia. Logo de início, ele percebeu que fazer experiências com vacas para estudar os resultados de diversas estratégias nutricionais seria demasiado demorado para o prazo em que tinha de entregar os resultados. Então, ele propôs que se usasse um animal diferente para as tais experiências e sugeriu que fosse o rato.

Como o rato tem uma vida curta e alimentá-lo e guardá-lo é fácil, usar ratos em vez de vacas tornava as experiências muito mais rápidas e práticas, permitindo que se fizessem muito mais experiências no mesmo espaço de tempo e, assim, obter mais e melhores resultados. Na escola agrícola do Wisconsin, nos Estados Unidos, onde o Elmer McCollum trabalhava, a ideia de alimentar ratos não foi muito bem aceite, principalmente pelo seu chefe, mas ele não quis saber disso e avançou com o projecto.

Através das suas experiências, ele provou que os ratos jovens cresciam fortes e saudáveis se fossem alimentados com uma dieta contendo gordura de manteiga, mas ficavam doentes se comessem exactamente o mesmo, apenas substituindo a manteiga por banha de porco, azeite ou óleo de algodão. A continuação destas experiências permitiu isolar, em 1913, a primeira vitamina, que na altura se chamou «factor A» e veio a ser baptizada como vitamina A. Mais tarde, os ratos do Elmer McCollum permitiram-lhe também descobrir a vitamina D.

Hoje em dia, os ratos representam quase 95% de todos os animais de laboratório e contribuíram para importantes avanços na compreensão de doenças tais como o Alzheimer e o cancro, bem como a propagação das doenças infecciosas.