Por Gustavo Martins-Coelho


Então, na semana passada, ficámos na questão da vacinação como decisão que cabe no quadro da liberdade individual de cada um [1]; e eu fiquei de explicar esta semana por que motivo não é exactamente assim.

A vacinação seria uma escolha individual, se essa escolha afectasse apenas a pessoa que a faz. Mas, além de, frequentemente, a pessoa afectada ser o filho ou a filha de quem toma a decisão, há uma questão maior: um dos efeitos mais importantes da vacinação é a chamada imunidade de grupo. Mas o que é a imunidade de grupo? Se uma proporção suficiente da população estiver vacinada (essa proporção é habitualmente 85% ou mais), a doença em causa tem mais dificuldade em propagar-se, porque, mesmo que uma pessoa esteja infectada, é difícil encontrar outra, não vacinada, a quem transmitir a doença. A este fenómeno chama-se imunidade de grupo.

A imunidade de grupo serve para proteger da doença as pessoas que não estão vacinadas, seja por serem demasiado novas para tomarem a vacina, seja porque têm alergia ou outra razão médica para não se vacinarem. Ou seja, através da imunidade de grupo, os vacinados protegem-se a si e também aos que não se podem vacinar.

Ora, se as pessoas que podiam ser vacinadas optarem por não se vacinarem, o efeito de imunidade de grupo perde-se e aumenta o risco de surtos de doença e algumas doenças que estavam eliminadas podem regressar. Aliás, para quem se lembrar, foi recentemente notícia que a imunidade de grupo para o sarampo acabou em Portugal [2]. Esta realidade não resulta exclusivamente da acção dos grupos antivacinação, mas deve-se-lhes em parte não despicienda.

Então, para terminar, quais são os riscos reais das vacinas? A maioria deles são muito leves: um inchaço e vermelhidão na zona da picada, dor de cabeça e febre; e as reacções graves são raríssimas — uma num milhão ou menos. Mas também há pessoas que preferem conduzir sem cinto de segurança [3] com medo de partirem a clavícula em caso de acidente, quando deviam estar mais preocupadas com o risco de morrerem no mesmo acidente, por não terem o cinto (porque um acidente que dá para partir clavículas com o cinto dá para morrer sem o cinto). Não se vacinar por medo dos efeitos secundários é tão estúpido como conduzir sem cinto de segurança.

No meio disto tudo, uma lição fica para o futuro: o medo e a falta de informação propagam-se exactamente como as doenças e é preciso vacinarmo-nos tanto contra a gripe, agora no Inverno, como contra a ignorância — o ano todo!

O sofá é o objecto do dia de hoje. À primeira vista, pode parecer uma escolha inusitada, mas, de facto, há várias ligações do sofá à saúde. A primeira delas — a mais óbvia — é a relação inversamente proporcional entre uso do sofá e actividade física. Mexer-se é bom para a saúde; ficar sentado no sofá nem tanto.

Mas hoje quero falar duma relação entre sofá e saúde que, sendo menos directa, é um bom exemplo de como é difícil tornar os produtos mais seguros para o consumidor sem causar danos inesperados e indesejados.

Os retardadores de chama, por exemplo, são usados não só para combater directamente os incêndios, mas também como aditivos em produtos sintéticos tais como roupas, móveis e carpetes, de modo a reduzir ou atrasar a sua probabilidade de combustão em caso de contacto com uma fonte de ignição e assim proteger a vida das pessoas em caso de incêndio. Nos Estados Unidos — na Califórnia, concretamente —, por exemplo, um sofá só podia ser vendido, até há pouco tempo, se conseguisse passar incólume por doze segundos de fogo.

O problema é que os compostos que são usados como retardadores de chama, nos sofás e noutros produtos, foram associados a alterações hormonais, cancro e problemas neurológicos em centenas de estudos com ratos de laboratório [1] e outros animais e em vários estudos com seres humanos. Além disso, estes compostos podem passar da roupa e da mobília para o ar e acumular-se no pó, que depois as pessoas inalam.

Por este motivo, os fabricantes começaram a reduzir a quantidade de retardador de chama que colocam nos sofás e estes tornaram-se menos resistentes ao fogo, mas igualmente menos perigosos para a saúde.