Nota do editor: este artigo é um resumo do artigo do George Prochnik, publicado no «The New Yorker» [1]


O escritor austríaco Stefan Zweig escreveu o seu livro «O mundo de ontem» no Verão de 1941, quando a Alemanha avançava por toda a Europa e engolia a civilização; e depois de ele mesmo fugir da Áustria, em 1934. Nesse Verão, perto de Nova Iorque, quis narrar como o reino de terror nazi começara e como os seus contemporâneos não se aperceberam do que estava a acontecer.

Durante o período inicial da ascensão de Hitler, o escritor liderou esforços de cooperação e solidariedade internacional contra o racismo e a xenofobia, procurando fomentar a compreensão entre os povos. Porém, as dificuldades económicas e a humilhação do Tratado de Versalhes impostas aos Alemães criaram o terreno ideal para projectos radicais e sanguinários.

Mas ninguém tomou Hitler a sério, nessa altura. Apesar de ver a sucessão de paradas militares e os jovens treinados para a agressão, ícones do movimento nazi; mesmo apesar duma tentativa de golpe de Estado — o resultado eleitoral do Partido Nacional-Socialista em 1930 foi saudado como um voto de protesto dos jovens contra a lentidão e falta de resolução da alta política. O sistema confiava demasiado em si mesmo.

A propaganda erodiu a consciência mundial. A saturação de notícias, anúncios e mentiras des-sensibilizou a audiência. Ninguém respondeu aos apelos contra a guerra. Ao mesmo tempo, a propaganda gerou esperança e negação. Toda a gente acreditava que o armamento da Alemanha não levaria à guerra; e toda a gente acreditava que os campos de concentração eram apenas rumores.

O escritor Stefan Zweig foi infeliz nos EUA, que se mantiveram indiferentes ao suicídio europeu. Foi por isso que se mudou para o Brasil em Agosto de 1941, onde a mistura racial era um exemplo do que ele acreditava ser a solução para a humanidade. Mas isso não o impediu de vir a cometer suicídio em 1942, deixando para trás uma mensagem de despedida em que preferia sair de cena antes de que os seus sonhos duma Europa tolerante e sem fronteiras fossem destruídos por completo.

Os EUA encontram-se na mesma escala de degeneração moral da Alemanha hitleriana. O presidente mente continuamente. O povo está embotado por uma torrente de notícias falsas e factos alternativos. As medidas políticas são anunciadas uma de cada vez, para medir o pulso à opinião pública — exactamente como os nazis iam fazendo, até toda a Europa perecer.

Segundo as memórias de Stefan Zweig, o factor que precipitou a consolidação do nazismo foi o incêndio do Reichstag — a destruição dum edifício simbólico, sem perda de vidas humanas, permitiu ao Estado aterrorizar a sua própria população. O fogo deflagrou menos de trinta dias após a tomada de posse de Hitler como chanceler. O poder das memórias de Stefan Zweig é notar que existia uma janela de oportunidade, em que era possível agir, e que ela se fechou súbita e irrevogavelmente.