Por Gustavo Martins-Coelho


Este ano está a ser atípico. O facto de termos tido o pior dia de incêndios exactamente a meio de Outubro [1] é um forte sinal — um dos muitos sinais [2] — de que algo não vai bem com o clima no planeta Terra. Agora, andamos todos ocupados com a seca, mais um sinal do mesmo [3]. Resumindo, este Outono parece-se muito pouco com um Outono digno desse nome e é por isso que o tema que escolhi para hoje pode parecer fora do sítio. Mas mais vale prevenir do que remediar e, como dizia uma personagem entretanto falecida duma série muito conhecida [4], «o Inverno está a chegar» e, com ele, inevitavelmente, chega a gripe.

Com a gripe, vão chegar as contumazes notícias sobre urgências entupidas de pessoas com o nariz entupido [5], o que não faz sentido, porque a gripe não se trata na urgência nem provoca narizes entupidos. Mas, infelizmente, continuamos a ter muitas coisas — não só a gripe e os narizes entupidos — que não se tratam na urgência a entupir as urgências [6].

Então, já deve o leitor ter percebido que hoje vou falar de gripe. Concretamente, quero esclarecer seis mitos comuns. O primeiro é o de que se apanha gripe (ou constipação, de caminho) por causa do frio. Errado [7]. A gripe é causada por um vírus e, portanto, apanha-se se contactarmos com alguém que está infectado por esse vírus e essa pessoa no-lo transmitir.

Este mito desemboca directamente noutros dois. O primeiro é que, se a gripe se transmite de pessoa a pessoa e não por causa da corrente de ar, então não é por nos agasalharmos mais que vamos prevenir a gripe. Devemos agasalhar-nos o suficiente para nos sentirmos confortáveis e é tudo. A prevenção da gripe faz-se doutras formas: lavar as mãos, não tossir para cima das outras pessoas nem se aproximar muito delas — aliás, evitar, tanto quanto possível, o contacto com outras pessoas quando se está doente — e vacinar-se. A vacina tem uma eficácia de cerca de 60% em adultos e até 45% em idosos, dependendo de vários factores, incluindo o tipo de vírus que circula mais em cada ano. Finalmente, caso um familiar apanhe gripe, o resto da família pode tomar, como prevenção, medicação antigripal; mas estou a falar de antivíricos prescritos pelo médico, não desses produtos farmacêuticos ou homeopáticos que se anunciam na televisão e nada fazem.

O outro mito sobre a gripe é o do tratamento com antibióticos. Como ela é causada por um vírus, os antibióticos são inúteis. Portanto, não peça ao seu médico que lhe receite antibióticos de que não precisa, porque só vai estar a contribuir para que surjam resistências e, com o tempo, eles se tornem inúteis [8], e muito menos vá directamente à farmácia: comprar ou vender antibióticos sem receita médica é proibido.

Entretanto, falei da vacina contra a gripe, como forma de prevenção, o que nos traz a outro mito sobre a vacina, além de todos os mitos sobre vacinas em geral de que tenho vindo a falar [9, 10, 11, 12, 13]: um argumento frequente contra a vacina da gripe é:

— Eu faço exercício, uma alimentação saudável e lavo as mãos com frequência. Além disso, nunca tomei a vacina e nunca tive gripe na vida. Logo, não preciso de me vacinar.

É falso. Só porque uma pessoa nunca teve uma doença na vida, seja ela qual for, não significa que não possa vir a tê-la. É como a história do cinto de segurança [13]: muita gente nunca teve um acidente de carro na vida, mas isso não é razão para não precisar de usar cinto de segurança. Além disso, a gripe não provoca sintomas em toda a gente, pelo que é possível que uma pessoa seja infectada e não fique doente, mas ande por aí a transmitir aos outros.

Isto leva-nos a mais um mito, que parece ser contraditório com o que acabei de afirmar: a gripe não é a doença leve e benigna que soi pensar-se. É verdade, como disse mesmo agora, que há pessoas que têm gripe e não desenvolvem sintomas de todo. É também verdade que, na maioria das pessoas, a gripe se manifesta por febre, dores musculares, fadiga, arrepios e letargia, o que não são, convenhamos, os sintomas mais graves que se pode ter. Mas é igualmente verdade que a gripe mata. A gravidade da doença depende do tipo de vírus que circula em cada ano e de factores do próprio doente, como sejam a idade, ter ou não tido gripe anteriormente, estar ou não vacinado e estado geral de saúde, incluindo outras doenças crónicas. Uma em cada mil crianças que têm gripe vai precisar de internamento hospitalar; e até quinze em cada cem mil pessoas podem morrer, por ano, por causa da gripe.

E o círculo completa-se: o primeiro mito de que falei foi que a gripe não é causada pelo frio, mas sim pelo contacto com pessoas infectadas; o último é que não são só as pessoas sintomáticas que transmitem a doença. Qualquer pessoa infectada, venha ou não a desenvolver sintomas posteriormente, pode transmitir a doença, mesmo que seja assintomática. O vírus fica armazenado na nasofaringe [14] e espalha-se através de gotículas, que são expelidas quando se tosse, espirra, ou mesmo quando se fala.