Por Gustavo Martins-Coelho


Quando falei de pequenos rituais que dão cor à vida [1],
omiti o grande ritual — aquele que define a minha vida.
Estar constipado
é o alfa e o ómega da minha existência.
Se eu fosse hemofílico,
teria morrido da primeira vez
que me constipei.

Sempre que me constipo,
inevitavelmente
acabo a esvair-me em sangue,
que jorra mais irritante que abundantemente
pelo nariz.

Tenho de descobrir
se jorra mais
da narina direita
ou
da narina esquerda.
Conto
contar
e fazer um gráfico de barras.

Tenho alma de estatístico.

Hesito em dizer que tenho alma de estatista,
porque me parece uma coisa muito marxista-leninista.

Olha, rimou!
Tenho um complexo com a rima [2],
mas, às vezes, acontece.

Facto.

O problema da rima
é que me corta
o raciocínio.
Mas uma coisa é certa:
isto é muito mais fácil assim.
O parágrafo é uma palavra.

E, de repente, esta frase faz sentido.
Aqui.

Tenho medo de adormecer,
quando estou constipado.