Por Gustavo Martins-Coelho


Confesso que tive alguma dificuldade em escolher um tema pertinente, interessante e diferente para a crónica de hoje. Os temas mais pertinentes, neste momento, a doença dos legionários [1] e o frio [2, 3, 4], já aqui foram abordados, até mais do que uma vez, no passado. Sei que tenho ainda pendentes muitas medicinas pré-científicas [5] para desmistificar, a começar pela saúde holística [6, 7, 8], mas não senti que fosse um tema incrivelmente interessante para hoje. Apetecia-me mais falar do papel da política na saúde, mas, com tanta medicina pré-científica pendente, achei que abrir mais uma frente retórica seria contraproducente.

Por outro lado, há ocasiões em que, por me alongar no tema principal, acabo por saltar o objecto do dia. Então, para resolver a minha indecisão e compensar as vezes em que não falo do objecto do dia, decidi fazer hoje uma crónica só sobre alguns objectos da lista que a Escola Bloomberg, da Universidade Johns Hopkins [9], nos Estados Unidos da América, criou sobre os cem objectos que marcaram a história da Saúde Pública.

Um deles é o microscópio electrónico. Quando o comité Nobel anunciou a atribuição do prémio Nobel da Física ao inventor do microscópio electrónico, em 1986, referiu-se-lhe como «uma das mais importantes invenções deste século». Os primeiros microscópios, que os historiadores situam no século XVII, usavam a luz para permitir ampliar e visualizar os objectos que eram demasiado pequenos para serem vistos a olho nu. Esses microscópios ainda são usados em muita coisa, mas também há muita coisa que está para lá do seu limite de resolução. Esse problema foi resolvido em 1933, quando um jovem estudante alemão chamado Ernst Ruska criou uma lente que, em vez de luz, usava electrões, que são pequenas cargas de electricidade, e, com isso, permitia ver e estudar, por exemplo, os vírus, que eram invisíveis nos microscópios ópticos, que usam luz, mas são apanhados pelo microscópio electrónico. Esta nova tecnologia desempenhou um papel fulcral no desenvolvimento da vacina [10] contra a poliomielite, além de em muitas outras descobertas nos campos da biologia e da medicina, pelo que teve um tremendo impacto na saúde pública.

Mas nem todos os objectos com impacto na saúde pública têm um impacto positivo. As armas, por exemplo, têm imenso impacto, mas nada bom. As armas são um problema particularmente premente nos Estados Unidos da América, onde matam mais de 33.000 pessoas por ano, entre suicídios, homicídios, acidentes e tiroteios em massa [11]. Além destas dezenas de milhar de mortos, mandam mais de 80.000 pessoas por ano para as urgências, com ferimentos causados por armas de fogo. Nos EUA, há 89 armas por cada cem pessoas. O país mais próximo é o Iémen, com 55 armas por cem pessoas. A proporção de homicídios por arma de fogo, tendo em conta a dimensão da população, é 25 vezes superior nos EUA do que a média dos países de elevado rendimento. O equivalente norte-americano à Ordem dos Médicos em Portugal, a Associação Médica Americana, considerou a violência por armas de fogo uma «crise de saúde pública» e defendeu a aplicação de medidas que restrinjam o acesso a armas pela população. Contudo, a política norte-americana em relação às armas é complexa [11], de tal forma que até os CDC, que são o equivalente da nossa Direcção-Geral da Saúde, foram impedidos, durante anos, de financiar a investigação científica sobre o papel das armas na violência e na mortalidade. Um exemplo de como a ciência não está livre da ideologia…