Por Gustavo Martins-Coelho


Em tempos, falei aqui de saúde holística [1, 2, 3]. Disse que o conceito faz sentido [1]: a saúde holística diz respeito ao entendimento de que cada ser humano funciona como uma unidade integrada, completa, e não como a soma das suas partes, pelo que deve ser observado nas suas dimensões fisiológica, sociológica, psicológica, económica e espiritual; e disse que a saúde pública é a abordagem holística por excelência [1]. Depois, expliquei que o conceito se materializa numa série de aspectos, como sejam a centralidade do doente e a integração dos cuidados de saúde, a prevenção quaternária, o conforto do doente e a proximidade do profissional de saúde, e a abordagem da saúde mental [2]; e que a intervenção médica deve acontecer não só em termos de cura biológica, mas também em termos de minimização do sofrimento físico e psíquico e em termos da atenção ao ambiente que nos rodeia [3].

Finalmente, chamei a atenção para o facto de que a saúde holística não é um mar de rosas. Pelo meio do trigo, há muito joio, como é o caso das curas pela fé, da acupunctura, das acções psico-educativas, espirituais, expressivas e artísticas, das terapias com animais e da haptoterapia [3].

Mas, entretanto, houve um aspecto da abordagem holística à saúde de que não falei detalhadamente, mas vou falar agora. Aliás, este é capaz de ser um dos pontos em que uma abordagem científica na perspectiva holística começou mais cedo: o das interacções farmacológicas.

Sempre que um doente toma um medicamento, para tratar qualquer coisa, seja uma doença aguda ou crónica ou um simples mal-estar, esse medicamento vem acompanhado. Frequentemente, doutros medicamentos receitados pelo mesmo médico que receitou aquele, ou outros de venda livre que o doente achou por bem adquirir na farmácia; mas não só: também chás, ervas e mesmo a comida — ninguém deixa de comer, enquanto está a tomar um antibiótico… Todos esses produtos — medicamentos, toxinas, alimentos — todos esses produtos juntam-se aos compostos endógenos, produzidos pelo nosso organismo, e exercem efeitos estimuladores ou inibidores dos diferentes processos psicológicos e bioquímicos que acontecem no nosso corpo. Estes efeitos podem alterar o metabolismo normal a ponto de representar um perigo para a saúde [4]. Chamamos a isso uma interacção farmacológica; e importa conhecê-las, para prevenir situações de toxicidade.

É por isso que, nas próximas semanas, vamos falar de interacções entre plantas e medicamentos.

Mas, para hoje, resta-nos o objecto do dia, que é o sal iodado, que também é uma espécie de medicamento.

O sal iodado foi inventado em resposta ao bócio, uma doença da tiróide causada pela deficiência de iodo. Basicamente, o sal iodado é o sal de mesa comum com iodo adicionado. O primeiro sal iodado foi comercializado no Michigão, nos Estados Unidos, em 1924.

Nos Estados Unidos, actualmente, quase setenta por cento do sal de mesa consumido é iodado. No entanto, isto não é uma realidade universal: em muitas partes do mundo, o fornecimento de iodo na dieta é insuficiente e só vinte por cento dos agregados familiares, a nível mundial, tem acesso a sal iodado. A Unicef considera esta a maior causa mundial de deficiências cognitivas e estima que, em 2013, um quarto da população mundial estava ainda em risco.

As regiões onde a deficiência de iodo é mais comum são o Sudeste asiático e África. Nestas duas regiões, 58 milhões de pessoas, em 32 países, tinham deficiência de iodo em 2011.