Nota do editor: este artigo é um resumo do artigo do Larry Elliott, publicado no «The Guardian» [1]


Em Outubro de 1517, o monge Martinho Lutero mudou o mundo, quando (alegadamente) pregou as suas 95 teses na porta da igreja, em Wittenberg, assim iniciando a Reforma. Na semana passada, o economista Steve Keen, vestido num hábito e com um martelo insuflável na mão, apresentou as suas 33 teses [2] à porta da London School of Economics. A Economia precisa da sua própria Reforma.

À semelhança da Igreja medieval, que mantinha as massas às escuras ao rezar a missa em Latim, a Economia ortodoxa pensa que tem todas as respostas e usa mistificações matemáticas para validar a sua crença na auto-regulação dos mercados e nos consumidores como seres racionais. Os economistas que se afastam desta linha são hereges. Mas foram eles que previram a crise financeira (e foram ignorados), ao olharem para a realidade, em vez dos modelos. Apesar disso, a crise (que a Economia neoclássica dizia não poder acontecer) não retirou o monopólio intelectual à perspectiva neoclássica.

A ciência avança através do debate. Na Economia, o debate morreu. O que é preciso fazer para o ressuscitar?

Primeiro, ouvir os consumidores, que desconfiam dos economistas, com razão. Esse é um dos motivos pelos quais os avisos dos especialistas sobre as consequências nefastas do brexit foram largamente ignorados pelos eleitores. Os estudantes estão igualmente desinteressados e desejam mais oportunidades para exercitar o seu pensamento crítico [3], confirmando que a heresia não se resume a keynesianos amargurados.

Em segundo lugar, paremos de tratar a Economia como se fosse uma ciência, porque uma ciência testa uma hipótese com os dados existentes e, se os dados não validarem as previsões da teoria, abandona-a e procura uma melhor. A Economia aceita como válidas teorias que apenas funcionam graças a pressupostos altamente questionáveis, como o de que os seres humanos sempre se comportam de forma previsível e racional.

Em terceiro lugar, a Economia tem de aprender com outras disciplinas, nomeadamente a psicologia. Se o fizesse mais vezes, poderia explicar melhor comportamentos que resultam da irracionalidade, da emoção, da preguiça, de tudo aquilo que nos torna humanos e não agentes económicos.

Em quarto lugar, a Economia tem de ser desmistificada. Uma das grandes batalhas entre católicos e protestantes no século XVI foi sobre a leitura da Bíblia em Latim ou na língua materna dos povos. Saber contar uma história sem recorrer a gíria é crucial.

O paradigma económico dominante tem todas as características duma religião. Acha-se dono da verdade. Cabe a cada um ler e pensar por si. A mudança é possível.