Por Gustavo Martins-Coelho


Hoje, começo com uma canção da banda americana R.E.M. Sempre me intrigou por que haveriam de chamar R.E.M. a uma banda, porque R.E.M. significa «rapid eye movement», mas, de facto, tendo em conta que Portugal tem uma banda chamada G.N.R. (que é o Grupo Novo Rock, mas podia ser a Guarda Nacional Republicana), os norte-americanos também podem ter o seu «rapid eye movement», que é uma fase do sono

Mas dizia eu que começo com uma canção dos R.E.M.… A canção em causa chama-se «Imitation of life» e tem, a versos tantos, a seguinte expressão: «tu queres o melhor / a melhor coisa desde que o pão veio em fatias».

Estes dois versos sempre me intrigaram: por alma de quem é que o pão fatiado é chamado para aqui?! A bem dizer, a letra toda não prima pela sua inteligibilidade, ou eu sou realmente muito burro: o refrão reza: «aquela cana de açúcar sabia bem / aquilo é canela, aquilo é Hollywood / anda lá, anda lá / ninguém pode ver-te tentar» e eu pergunto-me o que isto quer exactamente dizer. Até fui à Wikipédia ver se descobria alguma coisa; a entrada correspondente diz que a canção é inspirada num filme de 1959, que tem o mesmo título [1]. Como eu não vi o filme, talvez seja por isso que acho que o poema não faz qualquer sentido…

Mas voltemos à parte da canção que diz: «tu queres o melhor / a melhor coisa desde que o pão veio em fatias». Pelo visto, na língua inglesa, é uma expressão comum, particularmente nos Estados Unidos. Mas donde veio? Fui investigar e, aparentemente, terá surgido num anúncio à primeira marca de pão fatiado pré-embalado, a Wonder Bread, e pegou [2]. Penso que a ideia dos publicitários da marca seria a de que o pão fatiado e embalado é a melhor coisa desde que o pão começou a vir já fatiado, mas não embalado… Mas isto já sou eu a extrapolar. Se alguém tiver uma explicação melhor, é favor de ma comunicar!

O pão fatiado também me faz lembrar duma certa vez em que fui comprar pão de forma na companhia dum amigo [3], para fazermos umas sanduíches, e fomos abordados, no supermercado, por uma menina que queria por força convencer-nos a levar pão duma outra marca, com o argumento de que a marca que tínhamos escolhido continha vinagre na sua composição! Pensando no assunto de novo, essa menina era a equivalente dos movimentos anti-vacinas [4, 5] no sector da panificação: não consegue perceber que o vinagre está na composição do pão por uma razão. Mas adiante! Do que eu quero falar é doutro ingrediente, que existe no pão norte-americano, mas não no português — pelo menos que eu tenha conhecimento.

Então, o pão, nos Estados Unidos, é, desde 1998, enriquecido com um nutriente essencial — o ácido fólico, ou vitamina B9, que também existe, por exemplo, nos espinafres.

O ácido fólico é especialmente importante para as mulheres grávidas. Uma grávida que não consuma ácido fólico suficiente pode ter bebés prematuros, ou gerar bebés com defeitos do tubo neural. O tubo neural é a estrutura do embrião que dá origem ao sistema nervoso central, de modo que uma malformação aí provoca problemas muito graves a nível cerebral e da medula espinhal, como sejam a anencefalia ou a espinha bífida. A anencefalia é a falha total no desenvolvimento do cérebro; a espinha bífida provoca alterações na condução da informação do cérebro para os músculos e, consequentemente, paralisia, ou pelo menos diminuição da força das pernas, problemas no controlo da bexiga e dos intestinos, entre outras complicações.

Nos Estados Unidos, graças à suplementação do pão com ácido fólico, foi possível reduzir em mais de 50% a proporção de bebés que nasce com problemas do tubo neural. O sucesso desta primeira experiência levou a Food and Drug Administration, que é uma espécie de Infarmed dos EUA, a aprovar a suplementação de ácido fólico da farinha de milho que é tradicional na alimentação das comunidades latino-americanas, a fim de reduzir também o risco de defeitos do tubo neural nos bebés nascidos em famílias hispânicas.