Por Hélder Oliveira Coelho


Vem o frio. O cheiro a lareira. O vento cortante. Aguarda-se com algum anseio que possa até nevar. As árvores já se despiram. Sabemos que é o primeiro sinal. Os pinheiros mantêm-se, firmes e austeros. Chegam as luzes e as músicas. A luz e a música são o alimento da alma. É Natal.

O capitalismo e a mediocridade resumiram-no ao consumo imediato. Contudo, no mais profundo de nós, sabemos que não é esse o capítulo que se escreve a cada ano. Quem a ele se limite, por certo será infeliz.

As memórias de infância carregam os cheiros, os sorrisos a azáfama em torno da canela ou do odor a frito, que tanto amofina, mas sem o qual ninguém sabe viver. São as crianças que correm, ainda que pela ânsia de ter uma prenda. Mas quem não gosta de as ter? É o calor do encontro com todos os que amamos que continua a alimentar o Natal. As filhoses e azevias, o bacalhau e as couves, o polvo ou cabrito. A gula é certa. Todavia, não há-de existir pecado mais santo do que a gula no Natal. Se outras coisas há que colocam as diferenças de parte, é no Natal que mais vivemos essa dádiva. Que me importa se é preto, branco ou rosa. Se é ateu ou crente. Quero lá saber se é comunista ou liberal. Pouco me interessa se é heterossexual, homossexual ou outro sexual qualquer. Desde que venha por bem, naquele dia as portas de nossa casa hão-de abrir-se para o receber. Nas ruas há-de encontrar-se com quem conhece e com quem nunca viu, em torno de um madeiro. Há-de uma criança nascer e ser o menino Jesus de uma família. Há-de um ente querido partir, mas deixar gravada a saudade.

Não se compram as memórias, os cheiros ou a saudade. Não se compram almas, nem se vende virtude.

Enquanto houver Natal, há-de haver esperança de que o mundo melhore.

Feliz Natal, Próspero ano novo.