Nota do editor: este artigo é um resumo do artigo da Nicola Bertoldi, publicado no «DiEM25» [1]


Dezenas de milhar de nacionalistas de extrema direita e neofascistas inundaram as ruas de Varsóvia no dia da independência polaca, acompanhados de símbolos fascistas e cantando lemas xenófobos [2], demonstrando que a Europa enfrenta uma séria ameaça, que tem sido desvalorizada e ignorada [3].

Este avanço do extremismo perpassa todo o continente [4] e está ligado à grande recessão de 2007 e à crise que se lhe seguiu, a qual abalou as fundações das democracias modernas. É legítimo perguntar se estamos a viver os anos trinta do século passado novamente [5].

O perigo tecnocrata

O pressuposto de que a desintegração da União Europeia ameaça levar-nos de volta a esse tempo está a disseminar-se; e o mesmo acontece nos EUA, onde a eleição do Donald Trump é considerada já uma espécie de Weimar [6]. Contudo, isso traz-nos o perigo de tentarmos reagir retirando poder ao povo e constituindo um escol governativo tecnocrata não sujeito a sufrágio [7]. A teoria de que a eleição do Donald Trump resulta da remoção das barreiras entre o poder do povo e o poder político e da frustração infligida à maioria branca de classe média pelas excessivas exigências das minorias [8], em vez de destacar o perigo da ressurgência de movimentos neofascistas, aglutina todos os movimentos insatisfeitos com o status quo debaixo da mesma capa. Uma tal narrativa é, todavia, falaciosa e enganadora, por quatro razões.

Quatro argumentos, de Hitler e Mussolini a Arendt e Marx

Primeiro, historicamente, nem Hitler nem Mussolini foram eleitos de forma puramente democrática. A sua ascensão foi apoiada pela elite, contra o «perigo vermelho» [9], e pela violência.

Segundo, tal narrativa sobrestima o apoio popular dos partidos de extrema direita, quando o seu principal efeito é puxar o discurso político dos restantes partidos para a direita [10].

Terceiro, ao interpretar a ascensão do Donald Trump como o resultado dum excesso de democracia, corre-se o risco de fornecer mais argumentos às pessoas que sentem que o poder está demasiado concentrado nas mãos duma oligarquia, empurrando-as para partidos anti-sistema.

Quarto, o uso da analogia de Weimar para qualificar a presente situação foca-se nos aspectos conjunturais e ignora que a nossa própria sociedade democrática encerra na sua estrutura a raiz do nazismo, ao conseguir tornar uma grande fracção da sua população supérflua [11], através do progresso tecnológico [12], a que se junta a crise dos refugiados.

Duas resoluções para o futuro

Devemos então concluir que a analogia entre as nossas dificuldades actuais e a crise dos anos 1930 é falsa? Alguns pensadores acham que sim [7]. Porém, eles ignoram as duas principais lições a retirar da república de Weimar: que o colapso da UE não traria uma alternativa progressiva ao neoliberalismo, mas antes exacerbaria as características estruturalmente fascistas da nossa ordem democrática [13], pelo que importa salvar a UE, apesar de todas as suas imperfeições; e que as dificuldades actuais requerem soluções arrojadas e pragmáticas, tais como as propostas do DiEM25 para um New Deal europeu [14], que combinam as lições do New Deal norte-americano com a transição ecológica e o pós-capitalismo.

Por todas estas razões, chegamos à conclusão de que o problema não é a analogia propriamente dita, mas a forma como está a ser enquadrada. Temos de evitar usá-la para justificar políticas tecnocratas e aplicá-la ao serviço de objectivos democráticos e progressivos.

O DiEM25 é a prova de que as lições do passado podem ser aprendidas e transformadas em resoluções construtivas para o futuro. É tempo de traduzirmos essas resoluções em acção.