Nota do editor: este artigo é um resumo do manifesto de Sarah Chiche, Catherine Millet, Catherine Robbe-Grillet, Peggy Sastre e Abnousse Shalmani, publicado no «Le Monde» [1]


A violação é crime. Mas a sedução desajeitada não, nem o galanteio é machista.

Após o escândalo Weinstein, houve uma tomada de consciência da violência sexual exercida sobre as mulheres por parte dos homens, no trabalho, que era necessária, mas que se tornou um mantra puritano, que tem de ser repetido por todas, sob pena de acusação de traição. Com o argumento da protecção das mulheres, estas são remetidas à condição de eternas vítimas de falocratas. De facto, o #metoo levou a uma cascata de denúncias, que equipararam a agressões sexuais, sem direito a defesa, indivíduos cujo único erro foi tentar beijar ou enviar uma mensagem picante a uma colega que não lhes correspondia no sentimento de atracção. Esta febre de enviar os porcos ao matadouro, longe de ajudar à autonomia das mulheres, serve para reprimir a sexualidade, impor o extremismo religioso e repor uma moral vitoriana que coloca a mulher num plano inferior, de ser que necessita de protecção. Por seu turno, aos homens compete identificar um passo em falso que poderão ter dado há vinte anos e por ele se penitenciarem. Ambos os sexos terminam sob o jugo do totalitarismo social.

A vaga expiatória parece não ter limites. A publicidade, a pintura, o cinema e a literatura são censurados, em busca do misógino. As personagens masculinas têm de ser menos sexistas, as descrições sexuais mais comedidas e os traumas sofridos pelas personagens femininas mais evidentes! Pouco falta para que dois adultos que pretendam ter sexo tenham de assinar previamente um contrato numa aplicação móvel, explicitando que práticas aceitam e quais repudiam.

Tal como o direito a ofender é, para Ruwen Ogien, fundamental à criação artística, o direito a importunar é indispensável à liberdade sexual. A pulsão sexual é por natureza ofensiva e selvagem, mas existe uma distância entre a sedução desajeitada e a agressão sexual. Acima de tudo, o ser humano não é uma pedra: uma mulher pode dirigir uma equipa profissional e gostar de ser dominada por um homem, sem que isso a torne cúmplice do patriarcado. Pode lutar pela igualdade salarial, sem se sentir ofendida porque alguém se encostou a ela no metro.

Não nos reconhecemos nesse feminismo que se confunde com ódio aos homens e à sexualidade. O direito a dizer que não a uma proposta sexual deriva do direito a fazer essa proposta — o direito a importunar —; e é preciso saber responder a esse direito a importunar, sem se refugiar no papel de presa. As mulheres devem saber viver plenamente a sua vida, sem se deixar intimidar nem culpabilizar, conscientes de que os acidentes que possam afectar o seu corpo não tocam necessariamente a sua dignidade, nem fazem delas vítimas permanentes. As mulheres não são redutíveis ao seu corpo; a sua liberdade interior é inviolável, mas não há liberdade sem risco nem responsabilidade.