Por Gustavo Martins-Coelho


Na semana passada [1], prometi que hoje abordaria o papel da pobreza na infecção pelo vírus zica e o papel da precariedade laboral na diabetes. São dois exemplos de como a saúde é determinada por factores muito além dos hábitos mais ou menos saudáveis de cada pessoa e da disponibilidade e qualidade dos cuidados de saúde prestados à população.

Note-se que isto não serve como desculpa para desresponsabilizar cada um, individualmente, de adoptar os comportamentos o mais saudáveis possível. Pelo contrário, serve, precisamente, para acrescentar uma nova camada de responsabilidade: a nossa responsabilidade comum, enquanto membros da sociedade, enquanto cidadãos eleitores; e a responsabilidade de cada um dos nossos representantes eleitos, seja o presidente da câmara, seja o primeiro-ministro, etc.

Comecemos então pelo zica. O vírus zica é transmitido às pessoas pelo mosquito Aedes aegypti, que é o mesmo mosquito que transmite a dengue. Estes mosquitos — como todos os mosquitos, de resto — reproduzem-se em águas paradas e é por isso que as zonas de maior risco de zica (e dengue) são aquelas onde vivem os mais pobres, que não têm canalizações de água potável nem de saneamento. Este é, antes de mais, um problema político: construir canos subterrâneos não conquista tantos votos como construir uma avenida ou um estádio, porque o que está debaixo do chão não se vê e as vidas salvas dessa forma só aparecem na estatística, que poucos lêem.

O zica tornou-se famoso, por causa do que fazia aos bebés que nasciam de mães infectadas [2]. Em resposta, os ministros da saúde, em vários países, recomendaram às mulheres que não engravidassem; tal como, há trinta anos, recomendaram às pessoas que evitassem a SIDA não tendo sexo — e resultou imenso… Esta redução duma questão complexa e com fortes implicações sociais às escolhas individuais de cada um, além de ineficaz enquanto mensagem de saúde pública, consubstancia uma abdicação, por parte do governo, da sua responsabilidade. Em muitos dos países onde o zica se espalhou, as mulheres pobres, as raparigas adolescentes e as mulheres pertencentes a minorias não têm autonomia sexual, não recebem educação sexual e não têm acesso à contracepção. Como podemos, nestas circunstâncias, dizer-lhes para não engravidarem??

Paralelamente, a lei dalguns desses países é das mais severas relativamente ao aborto, cortesia de governos que são, não exactamente a mão de Deus, mas a mão das religiões, que, como qualquer pessoa de bom senso sabe, são uma coisa muito diferente…

Isto mostra como as mulheres, particularmente as mais pobres, jovens e marginalizadas, sofrem as piores consequências da inacção dos governos em matéria de saúde pública, protecção social e discriminação. O zica é, antes de mais, um problema político.

Vou deixar a diabetes para a semana, para ainda ter tempo de falar do objecto do dia. Para hoje, escolhi a solução de re-hidratação oral.

Em cada ano, a desidratação causada pela diarreia resultante de doenças infecciosas mata mais de 500.000 crianças com menos de cinco anos, no mundo inteiro. É muito, mas o número seria da ordem dos milhões, se não houvesse uma mistura de açúcar, sal e água em proporções adequadas, que permite aos organismos reter água com maior facilidade. Esta mistura é chamada solução de re-hidratação oral.

A solução de re-hidratação oral foi desenvolvida na década de sessenta do século passado, por investigadores do Paquistão, do Bangladeche e da Índia, e impede as crianças de morrerem de desidratação. Na altura em que esta solução foi desenvolvida, a única alternativa era a hidratação por fluidos intravenosos, demasiado cara para os países mais pobres do mundo. Desde a sua invenção, calcula-se que a solução de re-hidratação oral tenha salvo aproximadamente sessenta milhões de vidas.