Por Gustavo Martins-Coelho


Na Terça-feira passada, não pude ir à minha aula de dança [1].

Porquê?

Porque o meu par não pôde ir à aula comigo.

Porquê?

Porque estava cheia de dores na perna esquerda, que lhe tolhiam os movimentos — e a dança baseia-se no movimento!

Por que se baseia a dança no movimento?

Essa pergunta, além de dar pano para mangas e se encontrar muito além da minha retórica, é irrelevante para o caso cuja narração está em curso.

Por que tinha o meu par a perna esquerda incapacitada?

Em resultado duma queda, ocorrida na tarde do mesmo dia.

Por que caiu o meu par nessa tarde?

Porque escorregou no chão, ao dobrar uma esquina.

Por que escorregou ela?

Porque teve de se desviar dum carro parado em cima da passadeira que ela queria atravessar e o chão estava escorregadio. Provavelmente, também porque a rua tinha um forte declive.

Por que tinha a rua um forte declive?

Porque isto é o Porto, não é Amesterdão.

Por que estava o chão escorregadio?

Porque estava a chover e porque algum arquitecto (o qual, provavelmente, faz a maioria das suas deslocações de carro, ou é simplesmente insensível), achou que seria boa ideia pavimentar o passeio com microcubo, tornando-o irregular, escorregadio e propenso a atirar os peões ao chão.

Por que estava a chover?

Porque estamos no Inverno e assim é o clima do Porto nesta época do ano, apesar das alterações climáticas propiciadas pelo aquecimento global.

Por que se pavimenta o passeio com microcubo?

Porque as «Normas de (re)construção de passeio» da Câmara Municipal do Porto [2] assim autorizam e os arquitectos, os engenheiros, os empreiteiros e o demais pessoal afecto ao processo acham que é boa ideia dar primazia à estética (de gosto duvidoso) sobre a funcionalidade, gerando passeios irregulares, onde cair é o pão-nosso-de-cada-dia, caminhar de saltos altos é uma acrobacia e transportar uma mala de viagem com rodas um acto de mutilação (da mala).

Agora, o que realmente interessa: por que teve ela de se desviar dum carro parado em cima da passadeira?

Porque o condutor não quis saber do código da estrada. Porque o condutor não tem um pingo de respeito nem de consideração pelos seus concidadãos. Porque o condutor é egoísta e limitado; e, por isso, vê apenas a satisfação das suas necessidades imediatas, sem compreender as implicações que essa perspectiva tem na vida dos que o rodeiam e na sua própria vida a longo prazo.

Resumindo, na Terça-feira passada, não pude ir à minha aula de dança, porque uma pessoa que não conheço achou que podia parar o carro numa passadeira.

Foi só por um minuto — dir-me-ia o condutor. — Veja que nem saí do carro.

Talvez. Mas um dia tem 1440 minutos e o Porto tem 113.000 carros a circular por dia [3]. Basta que um em cada cem desses condutores decida parar por um minuto numa dada passadeira, para que ela fique o dia inteiro obstruída por veículos!

Se reduzirmos o período considerado para as dezasseis horas «úteis» do dia (retirando oito horas de «noite») e alargarmos o espaço em análise para uma rua como a que dá nome a este blogue [4], basta que 960 condutores (0,8% do total de carros que circulam na cidade) decidam parar, consecutivamente, por um minuto em qualquer ponto ao longo dos 2550 metros da Rua da Constituição [5], para que a rua nunca esteja totalmente livre de obstáculos entre as sete horas da manhã e as onze horas da noite.

Um obstáculo deste género gera exactamente o mesmo problema, seja qual for o ponto da Rua da Constituição onde se encontre: uma redução das duas vias de trânsito que compõem a faixa de rodagem a uma única, com a implicação em termos de congestão do tráfego a montante que essa situação acarreta.

O seu minuto pode custar muitos minutos a muita gente.

O minuto dos outros pode custar-lhe muitos minutos a si.

Como diz o bom povo, temos de ser uns para os outros