Por Hélder Oliveira Coelho


Era uma menina… Tinha dezanove anos! Não havia internet, não havia Google, não havia televisão. A medo, foi cantar umas cantigas num programa de rádio que costumava escutar. Nunca quis ser artista. Quem nasceu dono duma voz daquelas pouco podia querer. O destino e o público haveriam de escolher por ela.

Conheceu músicos, maestros, actores e poetas. Amou-os, como amava as palavras que dizia. Todo o corpo cantava. Era mais do que uma voz. Aquelas mãos… As mãos dançavam e marcavam o compasso com que o coração havia de bater cada nota. O olhar… Uma sensualidade inexplicável! Não era uma beleza helénica. Era uma sensualidade natural. Um vulcão de sentimento, só com o olhar. E era, no entanto, puro. Quem aqueles olhos visse sabia o que a alma sentia.

A honestidade que havia de trazer-lhe dissabores rapidamente saltava do olhar para a boca. As palavras eram ditas com uma força que tanques de guerra não tinham. Os poetas queriam quem desse o corpo e alma aos textos que sem isso nada mais seriam. Letras e músicas que passaram a ter corpo, alma e nome. Simone.

Sessenta anos depois… Os teatros tremem com aplausos e lágrimas. Avós, filhos e netos choram, riem e aplaudem. Ou a amam, ou a odeiam. A ninguém ela é indiferente. Aos milhares se levantam para a aplaudir. Depois das luzes, do palco, das cantigas, do público, das doenças, dos amores — depois de tudo, a mulher! Quantas vezes a chorar de saudade e solidão… Quantas vezes a dor… No seu pequeno pombal. De gostos simples e vícios eternos.

Não há-de nunca o seu povo esquecer-se dela. Ao seu público tudo deve. A eles, tudo tem dado. Cumprem-se oitenta primaveras desde que, naquela casa do bairro de Alvalade, aquela menina haveria de entrar.

Se depois do adeus abriu as hostilidades para a revolução de Abril, a desfolhada marcou as almas dos que ansiavam liberdade. A ditadura acabou naquele dia em que o país parou para fazer um filho por gosto.

Viva Simone de Oliveira!