Por Gustavo Martins-Coelho


Com o advento das notícias na internet, todas as horas são boas para publicar coisas.

Vem esta reflexão a propósito da forma como pretendia abrir o meu primeiro parágrafo de hoje:

O editorial de…

E fui confirmar a data e o nome do autor, para dar continuidade à frase, mas descobri que o editorial foi publicado no dia 18 de Janeiro às 0h09 e que nem sequer tenho a certeza de que seja um editorial. Quer dizer, foi assinado por um editor-executivo do Jornal de Notícias, mas está na secção «Opinião» do sítio do jornal, de modo que fico na dúvida sobre como continuar a minha frase:

O editorial de 18 de Janeiro chegou-me ao conhecimento através do Facebook.

Seria uma forma. Mas será um editorial ou uma opinião; e será que um texto publicado pouco depois da meia-noite pode ser enquadrado no conceito de antanho para o qual remete a expressão «editorial de 18 de Janeiro» — um texto que acompanha uma edição em papel dum dado jornal?

Pergunto-me também por que razão o editor-executivo do Jornal de Notícias estava a trabalhar a essas horas da noite… Aqui temos um exemplo acabado de como este admirável mundo novo da flexibilidade e do teletrabalho deu cabo da vida das pessoas! Digam o que disserem, a meia-noite não é hora de estar a escrever editoriais sobre bicicletas.

Mas deixemos todas estas considerações de lado e voltemos ao tema que hoje aqui me trouxe, ou então nunca mais saímos daqui. Arruinado que está o texto que eu tinha tão bem alinhavado na minha cabeça, antes de começar a escrevê-lo, vamos lá ao que interessa!

Chegou-me então ao conhecimento, através do Facebook, um artigo do Rafael Barbosa, editor-executivo do Jornal de Notícias, intitulado «O embrulho azul» [1].

Esse artigo é um hino à ignorância e ao preconceito que dela resulta.

A forma preconceituosa, quase pejorativa, com que o Rafael Barbosa se refere ao «embrulho azul» — um rapaz que vai para a escola na bicicleta da mãe — e ao «espectro» — a mãe do menino, que usava «óculos de lentes grossas» — e parte dos dois e da sua bicicleta para falar de pobreza infantil apenas demonstra duas coisas.

A primeira é ignorância. «País rico não é onde o pobre anda de carro, mas sim onde o rico anda de transporte público», escreveu alguém, algures. O mesmo vale para a bicicleta. Não é possível todos termos um carro (e não é por motivos económicos [2]). Só quem ignora isto pode dizer que uma mãe que leva o filho à escola de bicicleta é um problema que tem de ser resolvido. Alguns dos países mais ricos da Europa são famosos pelas suas ciclovias apinhadas, conforme demonstra o vídeo abaixo.

https://www.youtube.com/watch?v=i2hc1Ulwkew

A segunda é o preconceito: se vai de bicicleta, é porque é pobre. Eu gostava de ser pobre como os Holandeses deste vídeo, que andam de bicicleta à chuva, embrulhados em plásticos de todas as cores, ou a segurar num guarda-chuva com uma das mãos, ou até sem qualquer resguardo.

Pobre (de espírito) é quem insiste em hipotecar o nosso futuro comum — ambiental, energético e mesmo económico, por força dos dois anteriores — por uns gramas de conforto, frequentemente, desnecessário.

Conforto desnecessário é pegar no carro para fazer uma viagem de cinco minutos, que se faz em dez a pé. Conforto desnecessário é ir de carro para o ginásio, ou para a beira-mar, o parque ou outro sítio qualquer onde se faz a caminhada, a corrida ou os alongamentos. Conforto desnecessário é deixar o carro parado em segunda fila (ou em cima do passeio, ou em cima da ciclovia) para ir à padaria, ao café, aos correios, etc., quando há um lugar de estacionamento a vinte metros. Conforto desnecessário é negar à partida a possibilidade de ir de autocarro, porque nem sequer se sabe (nem quer saber) que há uma linha que passa a cada dez minutos e leva directamente ao destino onde se pretende chegar.

Ao contrário do que disse o Guilherme Duarte [3], o que cria «putos mais desenrascados, que se sabem defender, que vão saber mandar um patrão abusivo dar uma curva, que vão saber o que querem para as vidas deles» não é o bullying [4]: é, em parte, abdicar deste conforto desnecessário. O «embrulho azul» está em melhores condições para resistir à adversidade do que o Vasco, que vai no «carro, confortável, aquecido e seco» [1].

Não conheço a senhora e o seu filho, nem sei a vida que levam. Se calhar, são mesmo pobres — estatisticamente falando. Mas inferir isso pela sua opção de mobilidade diz mais de quem faz essa inferência do que daquela mãe e daquele filho.