Por Gustavo Martins-Coelho


Terminei, na semana passada [1], com a seguinte frase: «é preciso pararmos de fazer as coisas com os pés!» — e eis que o Ministério da Saúde nos dá mais um exemplo do que eu estava a falar!…

Quer isto dizer que não vou conseguir cumprir a minha promessa, também feita na semana passada [1], de retomar hoje a série de crónicas sobre política e saúde [2], porque outro valor mais alto se alevanta [3]. Já me disseram que eu tinha jeito para político [4], pelo que fica aqui mais uma promessa não cumprida — pois parece que é apanágio da classe…

Então, o prato forte de hoje será a Portaria conjunta dos ministros da Saúde e da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, que recentemente criou a licenciatura em Medicina Tradicional Chinesa [5].

O primeiro e maior problema desta licenciatura é a sua validade científica. Eu já fiz vinte e sete crónicas sobre medicinas ditas alternativas (que eu prefiro chamar pré-científicas, por razões que já expliquei [6]) e, mesmo assim, ainda não acabei… Vinte e sete crónicas, para dizer que permanece por demonstrar cientificamente que a acupunctura seja útil! Na azia — não funciona [7]. Na obstipação crónica — não funciona [8]. Na síndroma do intestino irritável e noutras doenças ou alterações do aparelho digestivo, nomeadamente em situações de pós-operatório [9], incluindo a prevenção das náuseas e dos vómitos [10] e a dor [11] — não funciona. Na hipertensão — não funciona [9]. Na diabetes — não funciona [12]. Na obesidade — não funciona [13]. Na dor muscular — não funciona [10]. Na dor menstrual — não funciona [7, 8]. Na dor devida às doenças reumáticas — não funciona [14]. Na artrose — não funciona [7]. Na doença de Parkinson — não funciona [11, 15]. Na epilepsia — não funciona [9]. Na irrigação cerebral [16] — não melhora [17]. Na dor talâmica [7], nas dores no ombro [10] e na redução da dependência de terceiros e limitações neurológicas específicas [18, 19], que surgem após um acidente vascular cerebral — não funciona. Na doença de Alzheimer — não funciona [10]. No autismo — não funciona [20]. Nas lesões da medula espinhal — não funciona [19]. Nas lesões cerebrais de causa traumática — não funciona [9]. Na paralisia e nos espasmos faciais — não funciona [19]. Nas perturbações do paladar — não funciona [20]. Na boca seca — não funciona [21]. Na sensação de ardor na boca — não funciona [21]. Nos soluços — não funciona [21]. Na dor ciática — não funciona [9]. Na inflamação do cotovelo — não funciona [22]. Na fibromialgia — não funciona [22]. Na incontinência urinária de esforço — não funciona [7]. No cancro, como tratamento paliativo da dor [15], no alívio dos sintomas psicológicos [15], na prevenção dos efeitos secundários da quimioterapia [15, 20], e dos efeitos adversos da terapia hormonal, no caso da mama [15, 23] — não funciona. Muito menos no tratamento do cancro propriamente dito [22]. Na angina de peito — não funciona [17]. Na doença pulmonar obstrutiva crónica — não funciona [9]. Na asma, na urticária e na dermatite atópica — não funciona [22]. Na insónia — não funciona [8, 10]. Na depressão — não funciona [8, 24]. Na ansiedade e no estresse, incluindo o pós-traumático — não funciona [8]. Na esquizofrenia — não funciona [22]. Na toxicodependência — não funciona [8]. Na fadiga — não funciona [8]. Nas dificuldades cognitivas — não funciona [8]. Nas doenças de pele — não funciona [10]. Na dor lombar crónica — não funciona [18]. Na dor de cabeça — não funciona [24]. Na dor dos doentes hemofílicos — não funciona [24]. No tratamento de infecções [24], incluindo no caso da SIDA [19] e da papeira [17] — não funciona. Na procriação medicamente assistida [23], incluindo especificamente a esterilidade masculina [8, 22] e a fertilização in vitro [9] — não funciona. Na disfunção sexual — não funciona [8]. Nos vómitos durante a gravidez — não funciona [18]. Na indução do parto — não funciona [23]. No parto propriamente dito [9] e, em particular, na asfixia do bebé durante o mesmo [24] — não funciona. Na surdez — não funciona [17]. Nos zumbidos no ouvido — não funciona [12]. Na impotência — não funciona [24]. Na ejaculação precoce — não funciona [24]. Nas entorses do tornozelo — não funciona [15]. Ficou claro? A acupunctura foi testada em todas estas situações e não conseguiu demonstrar cientificamente que funcionava. O resto são contos do vigários ou efeitos psicológicos. Nas demais situações imagináveis, não foi testada, mas, a avaliar por esta amostra, também não deve funcionar…

Permanece igualmente pode demonstrar, de forma totalmente inequívoca, a utilidade dos emplastros na asma [11].

A acupressão também já foi testada, sem sucesso, no alívio dos sintomas da insuficiência renal crónica [25] e no glaucoma [21].

A electroacupunctura não tem utilidade na cessação tabágica [26]; nem na cicatrização de feridas [9].

As terapias tian jiu também não funcionam na asma [15], até prova em contrário.

Quanto à moxibustão, é, provavelmente, inútil no tratamento da artrose [7]; no parto [24]; como paliativo dalguns sintomas associados ao cancro [15]; e na prevenção dos efeitos secundários da quimioterapia [20].

Relativamente à acupunctura com abelhas vivas, a única coisa que está demonstrada são os seus efeitos secundários [25]

A auriculoterapia é uma variação da acupunctura, que não conseguiu demonstrar utilidade na dor crónica; nem na insónia; nem para deixar de fumar; nem na prisão de ventre [27].

Passando às práticas da medicina antroposófica, a sua eficácia não foi provada cientificamente e a sua segurança pode ser questionável, dependendo do tipo de exercícios que são pedidos aos doentes [28]. Uma das práticas de maior destaque, a euritmia, não demonstrou até agora ser útil [28].

Finalmente, no campo da saúde holística, embora o conceito em si tenha valor [29], as curas pela fé, as acções psico-educativas, espirituais, expressivas, artísticas, as terapias com animais e a haptoterapia, que os praticantes de medicina holística propõem, carecem de qualquer suporte científico [30].

Vinte e sete crónicas, mas mais haveria. Falta ainda falar de homeopatia, medicina ayurvérdica, terapias de mente e corpo, naturopatia, fitoterapia, cromoterapia e terapias espirituais, entre muitas outras práticas. Lá chegaremos!

Para já, o que importa dizer é que uma licenciatura — o ensino superior, em geral, aliás — destina-se a formar pessoas dotadas de pensamento crítico, capacidade de raciocínio, princípios éticos e conhecimentos gerais sobre ciências e humanidades. Como é possível, então, que qualquer universidade se preste ao papel conferir uma licenciatura em Medicina Tradicional Chinesa, quando não existe base científica alguma para todas as práticas que mencionei anteriormente? O que vão os professores de Acupunctura ensinar aos seus alunos: que não funciona? Pois, se querem ter estudantes dignos desse nome — estudantes dotados de pensamento crítico, capacidade de raciocínio, princípios éticos e conhecimentos gerais sobre ciências e humanidades —, não podem pretender ensinar-lhes outra coisa que não o que a ciência nos diz.

O que nos traz ao segundo problema, que eu também já referi aqui [31], até mais do que uma vez [32, 33, 34]: «não existem medicinas alternativas. Existe uma medicina demonstrada cientificamente, baseada na prova e suportada por dados sólidos, e uma medicina não demonstrada, para a qual faltam provas científicas. Se uma prática terapêutica é ocidental ou oriental, se é convencional ou inconvencional, se envolve práticas de mente e corpo ou genética molecular, é totalmente irrelevante, excepto para efeitos de estudo histórico ou interesse cultural.» Ou seja, a medicina tradicional chinesa poderá ser uma competência médica, ensinada aos estudantes das faculdades de Medicina, se vier alguma vez a demonstrar cientificamente a sua eficácia (o que — nunca é demais repetir — está muito longe de acontecer), mas nunca deverá constituir um corpo de conhecimento isolado ou em concorrência com a medicina científica, como esta licenciatura materializa.