Por Gustavo Martins-Coelho


Contrariamente ao que é habitual, aquele autocarro em que entrei nessa tarde de sol ia para a Cordoaria [1] e não para os Aliados [2] (que sói ser o destino usual da linha em questão). Estranhei o facto, mas, sabendo que havia por aí umas manifestações planeadas para aquela época do ano (não sei bem contra quê), supus que se desse o caso duma delas estar a decorrer, exactamente no momento em que eu queria ir à Baixa, e a impedir a passagem dos autocarros. Quis confirmar esta minha suposição junto do motorista, pelo que lhe perguntei, logo ao entrar no veículo:

— Por que vai para a Cordoaria?

— Porque recebi essa instrução — elucidou-me ele, como quem esclarece que, afinal, ao contrário do que eu pudesse ingénua e equivocadamente ter pensado até aí, não são os motoristas dos autocarros quem, antes de cada viagem, decide para onde quer ir nesse momento e outros leva consigo.

Um motorista de autocarro sem pejo em destruir os sonhos e as ilusões dos passageiros…

Fiquei então sem saber por que não podia ir naquela tarde soalheira até aos Aliados de autocarro e contentei-me em ficar pela Cordoaria, pensando que, se não de autocarro, pelo menos a pé, haveria de chegar aos Aliados, que também não são assim tão longe, e aí acabaria por descobrir que obstáculo obrigava o autocarro a ficar mais acima.

Enganava-me, no então: presumo que o motorista tenha sido instruído diferentemente algures durante o percurso (ou então, afinal, são mesmo os motoristas dos autocarros que, durante a viagem, decidem se está na hora de terminar a linha ou se esta há-de prosseguir até ao fim), porque acabámos por ir todos para os Aliados, a despeito da informação no painel frontal do veículo e da instrução que o motorista me jurara ter recebido. Ademais, nos Aliados, não havia qualquer impedimento visível.

Fico sempre um pouco frustrado, quando, no autocarro ou no comboio, o assento ao meu lado permanece vago, paragem após paragem. Os passageiros sucedem-se na entrada, picam o bilhete e procuram um lugar sentado. Invariavelmente, escolhem outro, que não o que me ladeia; e eu fico a pensar se terei ar de assassino em série. Talvez vejam em mim o Hannibal Lecter do transporte colectivo! Ou o Jack, o Estripador do passe social! Talvez os outros passageiros evitem sentar-se ao meu lado, porque temem que eu possa retirar-lhes um rim durante a viagem, para o vender na paragem seguinte a um americano rico. Não sei. Mas dói. Eu só queria que alguém se sentasse ao meu lado! Nem precisava de meter conversa; bastava ir, ali, em silêncio, até ao seu destino, levantar-se e sair. Ou, se sucedesse o destino do meu parceiro de viagem acontecer depois do meu, eu pediria licença para passar e, na loucura, até poderia desejar boa continuação.

Só mesmo na loucura, porque «boa continuação» é uma expressão estúpida. O que raio significa «boa continuação»? Continuação de quê? E, se uma pessoa estiver infeliz, desconfortável, miserável — continuação da infelicidade, do desconforto e da miséria? Ou, como não é uma continuação qualquer, mas antes uma boa continuação, tratar-se-á então, na verdade, duma inversão do estado da pessoa — de infeliz a feliz; de desconfortável a confortável, de miserável a opulento? Então, desejar uma inversão pode equivaler a uma boa continuação?

Não sei.

Mas cheguei aos Aliados e, para mim, isso foi a melhor continuação que, naquele momento, o autocarro me poderia ter dado. Foi mesmo uma boa tarde e uma agradável surpresa.

Nunca saberei se foi o motorista que decidiu ignorar a instrução recebida, ou se foi a instrução que mudou. Em qualquer dos casos, obrigado.