Por Gustavo Martins-Coelho


O Governo publicou recentemente uma revisão do regime jurídico do internato médico [1]. Ainda não tive oportunidade de o ler, pelo que reservo um comentário ao mesmo para a semana — espero eu!

Para já, vou retomar um assunto que estava pendente há algumas semanas: a política e a saúde [2]. Depois do brexit [3] e da pobreza [4], para hoje, a precariedade e a diabetes.

Um estudo britânico interessante, publicado em Outubro do ano passado, analisou 150.000 indivíduos de seis países diferentes (Austrália, Dinamarca, Finlândia, Suécia, Reino Unido e Estados Unidos da América), durante quase dez anos, e chegou à conclusão que os trabalhadores sob ameaça de desemprego ou com rendimento variável — aqueles de quem se diz serem precários — chegavam a ter um risco de desenvolver diabetes superior em 20% aos restantes trabalhadores.

Conclusão: a precariedade é um factor de risco de doença — neste caso, de diabetes. Não sabemos ainda qual o mecanismo que leva a que isto aconteça. Poderá ser porque a precariedade gera ansiedade e as pessoas afogam a ansiedade em doces e no sofá; ou poderá ser porque a resposta fisiológica ao estresse gerado pela precariedade é em si mesma causadora de diabetes; ou poderá ser ainda porque uma pessoa ansiosa dorme pior e as alterações do sono estão associadas ao desenvolvimento de diabetes. Ou poderá ser isto tudo em conjunto…

De qualquer forma, o mais importante não é perceber como faz a precariedade para causar diabetes; o mais importante é saber como eliminar este factor de risco. As políticas de direita, que flexibilizam o mercado de trabalho através da promoção da precariedade, são causadoras de diabetes. É preciso percebermos que a primeira condição para uma vida de qualidade, incluindo em termos de saúde, é sabermos com o que contar no dia de amanhã, profissionalmente falando, e que isto não se coaduna com recibos verdes e contratos temporários.

Dito isto, retomo também hoje o objecto do dia, de que também já não falava há algum tempo. Para hoje, escolhi o copo de papel.

As fontes de água partilhadas, ou seja, os poços, fontanários, chafarizes, etc. (por contraponto à água da torneira, em que cada um tem a sua), são um esteio da civilização desde o tempo antigo; e, mesmo hoje, continua a haver muitas fontes assim. Contudo, na viragem para o século XX, as autoridades de saúde notaram que estas fontes eram uma ameaça para a saúde — não por si mesmas, mas pelo facto de, frequentemente, as pessoas partilharem as mesmas canecas de alumínio ou cerâmica e, assim, transmitirem germes dumas para as outras: a gripe, a constipação, ou até pior… De modo que, no início do século passado, o inventor Lawrence Luellen apresentou uma alternativa mais higiénica: o copo de papel, que, como é descartável, previne a transmissão de doenças.