Por Gustavo Martins-Coelho


Ainda não é desta que vou comentar o novo regime jurídico do internato médico [1]! Vou antes continuar o assunto da semana passada: a política e a saúde [2].

Apesar das vicissitudes e de estarmos longe do ideal, a verdade é que a igualdade de género tem aumentado, nas últimas décadas. As explicações mais comuns para a aproximação entre mulheres e homens em termos de direitos passam pela acção do feminismo e dos movimentos pelos direitos civis em geral. Mas, mais recentemente, surgiu uma teoria [3], segundo a qual as doenças infecciosas podem ter desempenhado um papel nesta matéria. Aliás, esta teoria surge enquadrada numa perspectiva científica da cultura como produto do ambiente em que os seres humanos se inserem [4].

Nos Estados Unidos da América, a igualdade de género, medida pelo número de mulheres no Congresso, razão salarial entre homens e mulheres, utilização de pronomes masculinos e femininos na literatura e percentagem de trabalhadores que prefere um patrão do sexo masculino, aumentou entre 1951 e 2013. Foram estudadas várias causas ambientais para esta evolução, como sejam a escassez de recursos, a guerra e o clima, mas foram as doenças infecciosas — de longe — que mostraram ter mais relevância.

A questão que se coloca, então, é qual o mecanismo pelo qual a doença provoca desigualdade de género.

A resposta é dupla. Nas regiões onde as doenças infecciosas são um problema grave de saúde pública, as pessoas tendem a ser mais conservadoras, autoritárias [5], religiosas e promotoras da desigualdade de género. Provavelmente, esta associação terá que ver com o facto de, numa situação em que as doenças infecciosas grassam na comunidade, o fechamento em torno da família [6] e das tradições actua como prevenção do contágio, ao afastar os indivíduos uns dos outros.

A segunda resposta tem que ver com a reprodução. Numa situação em que há muitas doenças infecciosas, as mulheres reproduzem-se mais cedo e têm mais filhos, para contrabalançar o risco de muitos deles (e as próprias mães) morrerem antes de chegarem à idade reprodutiva. Neste cenário, as mulheres ficam demasiado ocupadas com a gravidez, o puerpério, a amamentação, a educação das crianças, etc., para prosseguirem carreiras e estilos de vida como os homens. No cenário oposto, quando a probabilidade de morrer jovem com uma doença infecciosa é menor, as mulheres podem adiar a maternidade e prosseguir vidas mais semelhantes às dos seus parceiros masculinos.

Esta segunda via parece ser aquela que tem realmente mais impacto na igualdade de género.

Esta realidade também já foi verificada no Reino Unido, onde a mesma trajectória, em termos de igualdade de género, que verificámos nos EUA, também aconteceu. A única diferença foi o tempo que demorou a acontecer: nos EUA, a igualdade de género aumenta quinze anos depois da redução das doenças infecciosas, enquanto, no Reino Unido, demora 25 anos.

Isto diz-nos que, se realmente quisermos dar às meninas as mesmas oportunidades que aos meninos, a vacinação e a saúde ambiental são bons locais para começar.

Posto isto, vamos ao objecto do dia, que hoje é o rádio. Além do entretenimento e da informação, o rádio desempenha um papel importantíssimo nas comunicações em matéria de saúde pública, sobretudo em situações de catástrofe ou emergência. Aliás, os serviços da protecção civil e os serviços de saúde dispõem de redes de rádio, prontas a funcionar, caso os restantes meios de telecomunicações falhem. Mas, para além disso, o rádio pode ser usado como veículo de comunicação e educação para a saúde.