Por Gustavo Martins-Coelho


Dentro de precisamente dez dias, decorrerá, no âmbito do III Festival Feminista do Porto [1], a tertúlia intitulada: «O lesbofeminismo como alternativa ao sistema heteropatriarcal» [2]. Obviamente, sou contra. Por uma razão simples: se o heteropatriarcado [3] é uma ditadura do homem heterossexual, o lesbofeminismo [4], por contraponto, será a ditadura da mulher homossexual? Se é para substituir uma ditadura por outra, então prefiro ficar com a que temos (mais não fosse, porque, fazendo parte da classe opressora, não me apetece passar à condição de oprimido)…

Um pouco mais a sério, pugno pela democracia, onde quem manda é a maioria, desde que respeitando um conjunto de direitos universais, dos quais todos beneficiam, independentemente de constituírem minorias (no que a distingue da tirania da maioria). Ora, como a maioria é heterossexual, uma vez providos os direitos humanos e demais liberdades e garantias constitucionais a todos, sem excepção, em condições de igualdade e não discriminação — se esta premissa for verdadeira, a heterossexualidade está, necessariamente, em vantagem, na democracia, por força dos números, tornando o combate à heteronormatividade (aqui entendida como a norma social produzida num contexto de heterossexualidade predominante, não como a heterossexualidade enquanto arquétipo do normal) antidemocrático. São estas as regras da democracia; e este é, apesar das suas muitas falhas, o melhor regime político que temos.

Mas isto não nos diz por que motivo o feminismo me desamigou no Facebook.

Vá, não foi o feminismo todo; foi só uma feminista.

Venha daí, então, a história!

Acho que a nossa relação começou a azedar, quando discordámos sobre o significado político duma mulher fazer (ou retocar) a maquilhagem no autocarro. Nessa altura, já a minha feminista (note o leitor, como o uso do determinante possessivo, em vez dar o pretendido sentimento de aconchego à história, é outrossim um caso de paternalismo sobre a mulher que se pretende identificar sem nomear; e como a preservação do seu anonimato, longe de configurar respeito pelo seu direito à reserva da vida privada, é em vez disso uma forma de a despersonalizar) tinha um negócio de venda de produtos de tricô, sob a marca «A feminist knitter» [5]. Bem sei que há quem diga que as malhas em geral são uma questão feminista [6], mas tenho alguma dificuldade em acreditar, a não ser que me digam que as porcas e os parafusos são uma questão machista…

«A feminist knitter» é um nome equivocado, para uma marca: quando eu quero comprar um produto, interessa-me mais a qualidade e o preço do mesmo — e a relação entre os dois factores —, do que a ideologia política ou filosófica do seu fabricante. Se assim não fosse, dificilmente compraria metade dos produtos que tenho em casa, por diversos motivos.

Mas não foi por causa disso que a feminista me desamigou no Facebook.

Dizia eu que a nossa relação começou a azedar, quando discordámos sobre o significado político duma mulher fazer (ou retocar) a maquilhagem no autocarro (isto já se passou há uns dois anos). Para a nossa feminista, tal atitude configurava um acto subversivo. Eu disse-lhe:

— Olhe que não! — e substanciei com factos: «subversivo» implica, sob a luz da semântica, um acto intencional de perturbação ou alteração da ordem estabelecida, contra as práticas, as ideias ou as opiniões da maioria. As mulheres iranianas que tiram o véu em cima de caixas de electricidade [7] são subversivas. A Sofia [8], quando expõe na praça pública a total falta de respeito dos automobilistas portugueses pela lei e pelo próximo [9], é subversiva. Alguém que faz a maquilhagem em público fá-lo por uma (ou uma combinação) de três razões: porque é preguiçosa e preferiu passar mais dez minutinhos no quentinho da caminha, de manhã (sabe tão bem!); porque é eficiente e não gosta de perder tempo, preferindo fazer duas coisas (maquilhar-se e deslocar-se) ao mesmo tempo; ou porque é corajosa e consegue aplicar rímel aos solavancos, sem vazar uma vista. Não está a contrariar regra alguma, não está a protestar contra o que quer que seja, não está a subverter absolutamente nada.

Caiu o Carmo e a Trindade, quando eu disse isto: a minha feminista sentiu-se ofendida e as amigalhaças juntaram-se em sua defesa, transpondo para o online (esqueci-me de dizer que tudo isto se passou no inefável Facebook) a dinâmica de grupo que se gerava (gera) em torno dos linchamentos. Fui, portanto, facebookianamente linchado; e descobri, no processo, que um homem a expressar uma opinião discordante a uma mulher se designa mansplaining [10]. Curiosamente, eu, que sou homem (e médico), já fui várias vezes vítima de patientsplaining (por exemplo), mas parece que esta palavra ainda não existe, porque só as feministas é que descobriram que há pessoas que gostam de ensinar o pai-nosso ao vigário — e que todas essas pessoas são homens…

O tempo passou e a minha feminista resolveu publicar novamente no Facebook. Fê-lo em Inglês e tenho alguma pena de não ter guardado as palavras exactas (como fui desamigado, não posso revê-las), mas a ideia geral seria esta: «às pessoas que me dizem que sou uma feminista angry e feisty [mantenho as palavras usadas originalmente, para não ser o traduttore traditore que induz o leitor numa interpretação enviesada], devo dizer que isso, para mim, é um elogio e que, a partir daqui, só vai piorar.» Respondi-lhe que anger não nos leva a lado nenhum, e feistiness, frequentemente, também não, de modo que talvez ela devesse repensar a sua atitude. Respondeu-me que 55 pessoas discordavam de mim — era o número de likes que a sua publicação tivera, até ao momento em que me respondia. Retomando o espírito de matilha que presidira ao primeiro linchamento, quase dois anos antes, as amigalhaças começaram a actualizar a contagem. Chegámos aos 106 likes e eu disse: «106 pessoas são parte do problema». E elas: «sim, estamos todas erradas e só tu estás certo; parece aquela mãe que vê o filho na parada militar e diz que só ele vai a marchar com o passo certo…» Fechei a troca de impressões agradecendo à minha feminista, por ter tão bem ilustrado o argumento que eu procurava defender — e ela desamigou-me.

Uma coisa é certa: «feisty» pode ter três significados diferentes, mas, agora já sei a qual deles a minha feminista se referia, quando disse que tinha orgulho em ser «feisty» e pretendia apurar a técnica: pessoa que se ofende com facilidade. Vidrinho de cheiro, em bom Português!…

Millicent Fawcett [11], Gandhi [12], Simone de Beauvoir [13], Martin Luther King [14] e Harvey Milk [15], só para citar alguns exemplos de pessoas que se destacaram, durante os últimos 150 anos, na luta contra a supremacia do homem branco e heterossexual, eram tudo menos angry e feisty. Donald Trump [16], por outro lado, é bastante angry e feisty

E a verdade é esta: algumas feministas desta terceira vaga embarcaram numa deriva de delírio antimasculino, que é autoalimentada pela partilha em círculo fechado de noções quase ridículas de raiva dirigida contra a diferença, de negação da biologia humana e de totalitarismo de pensamento, que, embora nos antípodas do presidente dos EUA em termos de conteúdo, são dele indistintas na forma. Tentar dialogar com a infantaria deste movimento é como tentar encontrar lógica nos tuítes trumpianos [17]. Assim andamos, todos aos gritos uns com os outros, angry e feisty, sem ouvir ninguém [18].

Este ódio ao homem branco travestido de pseudofeminismo perdeu o interesse pelo diálogo, perdeu o foco na persuasão como arma política e, em última instância, fruto dessa perda, tornou-se estéril e inútil na promoção da mudança social que diz pretender realizar. Ainda bem que o feminismo (aquele digno desse nome) não é isto!