Por Gustavo Martins-Coelho


Uma vez chegado aos Aliados como se fosse para a Cordoaria [1], subi ao Coliseu.

Agora, o Coliseu tem nome de seguradora. Não tinha, na altura. Deve tê-lo adquirido, para prevenir acidentes. Ou talvez para não se sentir diminuído, em frente ao Pavilhão Atlântico.

Sempre que vejo muita gente sentada na geral, pergunto-me como aquilo aguenta com o peso de todos. Então, quando decidem bater com os pés no chão, no final, para dizer que gostaram do espectáculo, mais surpreendido fico por não vir tudo abaixo.

Acho a ideia de bater com os pés no chão para demonstrar satisfação, como vejo fazer, frequentemente, no Coliseu do Porto, bastante equivocada. Uma pateada tem, convencionalmente, o significado oposto. Ou talvez o público nortenho seja mesmo muito exigente e aquilo sejam pateadas a sério!

Agora, se acontecer uma pateada na geral que faça aquilo vir abaixo, satisfeita ou não, pelo menos, temos uma seguradora a quem telefonar. O mais certo é de nada servir, porque as seguradoras gostam de não pagar o que devem, mas, pelo menos, sempre temos direito a dois dedos de conversa com a agradável voz da Marta. Ou talvez nem isso: a Marta é da concorrência.

Aquela, talvez. Mas martas são todas. O dicionário está desactualizado: marta não é um mamífero carnívoro, da família dos mustelídeos; marta é o nome comum de todos os operadores de centro de atendimento telefónico aos clientes, também chamados de call center, porque já se sabe que estar a recibos verdes num emprego cujo nome é em Inglês é muito mais dignificante [2]

Os recibos verdes são a função pública invertida. Dizia-se que os funcionários públicos nunca podiam ser despedidos e, por isso, se davam ao luxo de mandriar a gosto, porquanto tal lhes não custaria certamente o emprego. Os operadores de call center vêem-se na situação oposta: tanto faz serem enormes mandriões ou os mais dedicados empregados, porque nunca deixarão a condição de verdes e o mais provável é, seis meses volvidos, passarem a outro tipo de verde — o do logótipo do centro de emprego.

Em boa verdade, nos call centers não se faz só atendimento aos clientes; também se fazem chamadas a putativos clientes, na esperança de os convencer a adquirir um produto ou serviço. É o chamado telemarketing. Quando me ligam dum call center, para me fazer telemarketing, sinto-me logo muito mais international, isto antes de passar à fase em que acho que me julgam desprovido de bom senso [3].

Receber uma chamada de telemarketing é uma montanha russa de emoções!

Apesar de tudo, tento ser simpático para as pessoas que me ligam na esperança de me vender coisas de que não preciso. Não é culpa delas. Quer dizer, é, meramente na medida em que aceitaram fazer aquele trabalho. Poderiam ter ido trabalhar para outra empresa, noutras funções que não azucrinar pessoas. Mas, às tantas, foi a única oferta de emprego que se materializou numa entrevista e não havia muitas mais opções…

Mas do que eu gosto mesmo é de responder a inquéritos telefónicos — e também pela internet! Já que mais ninguém quer saber da minha opinião, ao menos, aí, posso dizer o que acho sobre a mais recente publicidade àquela marca, o futuro produto que vai ser lançado pela outra marca e qual dos bancos acho mais sólido e de confiança.

Pena é que eu ache os bancos todos frágeis e enormes aldrabões: muito a contragosto, tenho de deixar sempre essas perguntas em branco…

Os piores bancos são aqueles onde guardo o meu dinheiro, ou aos quais devo dinheiro. Os restantes, ainda não tive oportunidade de descobrir que não prestam.