Por Gustavo Martins-Coelho


Já não falava de medicinas pré-científicas [1] há muito tempo, mas ainda há tanto por dizer!… Depois da acupunctura, da medicina antroposófica, da auriculoterapia e da saúde holística, chegou a vez da moxabustão.

Em boa verdade, já tinha aflorado a moxabustão um par de vezes [2 3, 4, 5, 6], a propósito da acupunctura, porque as duas estão intimamente relacionadas: a acupunctura espeta agulhas em determinados pontos; a moxabustão queima produtos vegetais sobre esses mesmos pontos. Mas a moxabustão merece uma crónica expressamente dedicada a ela; portanto, aqui vai disto!

A primeira coisa que é preciso dizer é que o princípio de aplicar calor para resolver problemas de saúde não é totalmente descabida. O calor é usado, por exemplo, pelos fisioterapeutas, para melhorar o funcionamento das articulações. O próprio corpo usa o calor para combater as infecções; a febre nada mais é do que isso. Portanto, não neguemos à partida uma ciência que desconhecemos, como dizia a saudosa Alcina Lameiras…

Mas, já que falamos de ciência, a segunda coisa que importa dizer sobre moxabustão é que, tal como no resto das técnicas que já abordei, a qualidade científica dos estudos científicos que pretendem validá-la, embora tenha vindo a melhorar [7], continua a ser muito baixa [7, 8]. Ou seja, mesmo nas situações em que eu diga que há estudos promissores, não deve o leitor esquecer que o nível de fiabilidade desses estudos é baixo e que, por conseguinte, pretender usá-los para justificar decisões de tratamento é abusivo.

A terceira e última coisa é o mecanismo de acção. Em geral, nós gostamos de saber como as coisas funcionam, mas, no caso da moxabustão, ninguém sabe. Uma hipótese (ainda não confirmada) é que a moxabustão funcione ao estimular os receptores térmicos da pele [9], reduzindo, por essa via, a inflamação [10]. Outra hipótese tem que ver com umas células especiais, que existem na pele e não só, chamadas fibroblastos [11].

Mas falemos dos estudos sobre a eficácia da moxabustão que existem; e o que dizem eles? Que a moxabustão pode ser uma opção no alívio da dor e doutros sintomas relacionados com a artrite do joelho [12, 13, 14, 15]; nas dores menstruais [16]; nas dores causadas por hérnias lombares [17]; nalguns efeitos secundários da quimioterapia oncológica [18]; em certas sequelas dos acidentes vasculares cerebrais [19]; na asma [20]; na síndrome do intestino irritável [21, 22]; na fadiga, seja desportiva [23], seja síndrome da fadiga crónica [24]; e na doença inflamatória pélvica [25].

Os estudos dizem também que os dados existentes ainda são inconclusivos em domínios tais como a insónia [26], a fadiga associada ao cancro [27, 28], a inflamação do cotovelo [29] e a hipertensão arterial [30].

Finalmente, os estudos existentes na área da obstetrícia dizem claramente que a moxabustão não tem qualquer utilidade na correcção da apresentação do bebé, isto é, quando ele está no útero com a bacia virada para baixo, em vez da cabeça, como é normal [31].

Resta então falar do objecto do dia; para hoje, o sabão. Um herói esquecido da saúde pública é o Ignaz Semmelweis, um médico húngaro que descobriu, nos anos quarenta do século XIX, que a febre puerperal era causada pelos médicos que não lavavam as mãos entre as autópsias e os partos. A comunidade médica não aceitou muito bem esta sugestão e o Ignaz Semmelweis acabou por morrer na miséria, num asilo.

Anos mais tarde, o Louis Pasteur, investigando por que motivo o vinho azeda, formulou a teoria dos germes, ainda válida actualmente, segundo a qual são os germes que causam doença e que, se lavarmos os germes, ficamos livres de doença.

Os estudos têm demonstrado sucessivamente que, ainda na actualidade, muitos profissionais de saúde não lavam as mãos, o que é um problema particularmente importante, porque a adequada lavagem das mãos pode impedir a propagação de muitas doenças: os cientistas estimam que uma em cada três crianças com diarreia e uma em cada cinco crianças com doenças respiratórias poderiam não ter apanhado essas doenças, se tivesse havido uma adequada lavagem das mãos.