Por Fábio Morgado


Seja bem-vindo, caro leitor! Após uma semana de interregno, devido à paragem dos campeonatos a nível europeu, estou de volta.

O título pode parecer provocatório, até porque nesta segunda metade do campeonato houve acusações de compra de jogos. Asseguro ao leitor que não pretendo enveredar por uma cruzada de acusações sem fundamentos.

Como já mencionei anteriormente, o futebol gere milhões de euros [1]; clubes como o Real Madrid, o Barcelona e o Manchester United costumam aparecer no topo das listas dos clubes mais lucrativos. O dinheiro que é facturado é depois aplicado na compra de jogadores talentosos, para dar uma vantagem em campo perante os rivais. A lógica é muito simples: os clubes mais ricos — chamemos-lhes «os melhores» — têm os melhores jogadores, os melhores treinadores, os melhores preparadores físicos, os melhores espaços e por aí fora.

O que é que o dinheiro não pode comprar? A resposta que estará na ponta da língua do leitor será talvez felicidade; e — sim, é uma das respostas certas, mas também poderiam ser «mentalidade» e «sorte».

Felicidade

Existe aquele ditado popular: o dinheiro não compra felicidade. É verdade e já um dos melhores rappers de sempre, The Notorious B.I.G., dizia que mais dinheiro, mais problemas. Temos um exemplo perfeito, actualmente: Rúben Semedo, um dos mais promissores defesas centrais portugueses, está actualmente preso; e, do circo mediático criado à volta desta situação, o que mais me impressionou foi ele ter amigos que o encorajavam no seu delírio na compra de carro [2]. Estas más companhias fazem-me lembrar o caso do euromilionário inglês de que falei algum tempo atrás [3].

Concluindo: um clube pode dar todo o dinheiro do mundo a um jogador, mas isso não garante que este esteja feliz; isso vai depender de factores externos ao clube.

Mentalidade

Todos gostamos de vencer, seja a jogar às cartas ou, no caso dum jogador de futebol, nos jogos em que participa. Do querer ao conseguir é onde está o trabalho. O Cristiano Ronaldo é o exemplo perfeito dum jogador com mentalidade vencedora: mais de dez anos no topo do futebol mundial. Os resultados que este apresenta não caem do céu; ele fez muitos sacrifícios, desde ir com catorze anos para o Sporting e aos dezoito para o Manchester United — mudanças radicais, para um rapazito que cresceu numa ilhazita no meio do Atlântico. A sua concentração e perseverança em ser o melhor fizeram dele o melhor. Jogadores como o Quaresma, que hoje em dia é uma estrela, não tiveram uma mentalidade ganhadora no seu início de carreira, o que o impediu, na minha opinião, de ser tão bom como o Ronaldo. Um exemplo actual é o Renato Sanches: é um jogador com talento, mas não é mentalmente forte, não se adaptou à rígida cultura alemã e no Swansea City começou a ter problemas de álcool, que só melhorou com a chegada do treinador português Carlos Carvalhal. Novamente, factores externos têm influência.

Sorte

Não é comprada nem com todo o dinheiro do mundo, a não ser que se acredite em bruxedo. Na minha opinião, ou se tem sorte ou não. Mario Gotze, um talentoso jogador alemão, durante anos e anos sofreu inúmeras lesões musculares, apesar de tomar cuidado com o seu corpo. Após rigorosos exames médicos por parte do clube que representa, o Dortmund, foi descoberto que sofria duma rara doença metabólica, chamada miopatia metabólica. Esta doença enfraquece os músculos, levando-os a «rasgar» mais facilmente, originando lesões musculares sucessivas. É caso para dizer que o rapaz teve azar em sofrer desta doença.


Os clubes com mais dinheiro do mundo não conseguem comprar estes três factores, mas podem investir dinheiro para minimizar o efeito prejudicial que factores externos possam ter sobre os seus jogadores e podem controlá-los, colocando-os, de certa maneira, numa espécie de prisão, que pode acabar por ser tão ou mais prejudicial do que as más companhias ou a solidão.

Os clubes têm de perceber que os jogadores não são mercadoria; são um activo, sim, mas são pessoas com sentimentos. Vendê-los demasiado cedo pode ser prejudicial a nível profissional, mas ainda pior a nível pessoal.