Por Luísa Vaz


Tem sido um fenómeno a que temos assistido com frequência na Europa e principalmente em Portugal onde este fenómeno se faz notar ao nível das eleições locais.

Os movimentos independentes deveriam partir do pressuposto de que teriam mais liberdade de expressão e actuação uma vez que não estão vinculados aos ideários partidários e à máquina partidária. Deveriam ser compostos por grupos de cidadãos anónimos com propostas e programas menos conceptuais e com um aspecto mais prático do que os apresentados pelos partidos ajudando assim a que o debate político e de ideias saísse dos «corredores do Poder» e a sociedade civil pudesse entender quais os objectivos e linhas orientadoras, podendo assim ajustar as suas expectativas.

Estes movimentos que se queriam cívicos deveriam ser uma mais-valia obrigando os partidos a sair dos seus espartilhos classicistas obrigando-os em última análise a optar por ideias e programas e não por «caras conhecidas».

Mas se observarmos a realidade vemos que não é isso que se passa. Na grande maioria dos casos, os movimentos surgem por altura das eleições e são normalmente encabeçados por militantes desavindos com as suas secções por terem sido preteridos em função de outro candidato. Ao verem que o seu nome não é aceite para encabeçar uma determinada lista, muitas vezes nem suspendem ou anulam as suas militâncias apresentando-se através destes movimentos como «independentes» quando não o são de todo desvirtuando assim uma ferramenta cívica que deveria existir para fomentar a transparência e clarificar o exercício do mandato político.

Estes movimentos acabam muitas vezes por se extinguir ou na própria eleição a que concorrem ou na duração do mandato que exercem e há razões claras para que isto aconteça, por um lado, um movimento para aceder às quotizações teria que possuir um quadro legal diferente o que significaria também um aumento de custos e por outro lado, sem uma estrutura montada como a que têm os partidos, torna-se muito difícil para um elemento eleito por um movimento conseguir criar a sua rede de influência. Para além de tudo isto, não havendo eleições pois normalmente trata-se de um movimento gerado de forma quase espontânea, não há cargos para distribuir e os cidadãos que o compõem, ao ambicionar intervir na sociedade e tornar o movimento mais visível sentem necessidade do apoio de uma estrutura. Não raras vezes é pela soma destas razões que os movimentos não subsistem à erosão do tempo.

O grande problema dos movimentos independentes prende-se não só com a motivação e ambição de quem os cria ou encabeça mas com a sua quase obrigatória politização. É praticamente impossível que quem encabece um movimento ou escreva as suas linhas programáticas e orientadoras seja completamente apartidário e como tal, em alguma área essa influência ira aparecer o que poderá «colar» o movimento a um espectro político condicionando assim as suas abordagens e respostas desde o primeiro momento.

Os movimentos independentes poderiam ajudar a amadurecer a Democracia se não tivessem por base a «fulanização» e a divisão do eleitorado actuando como uma arma positiva no sentido de contribuir com novas visões e conceitos e não com o objectivo maior de impedir determinado candidato de ganhar eleições.

Os movimentos funcionarão com representatividade no dia em que puserem as ideias ao serviço das pessoas e não usarem as pessoas para levar adiante determinadas ideias. Por outro lado, os partidos devem renovar-se na forma de estar, actuar e pensar a Política mas também e não menos importante, na forma como escolhem os seus candidatos e nos parâmetros que norteiam essas escolhas.

Também ao decidir dar apoio, declarado ou encapotado, a uma determinada candidatura independente, os partidos deveriam estar a tentar rejuvenescer a forma de fazer política e não capitalizar apenas um candidato que facilmente pode enveredar pelos tortuosos caminhos do populismo para se afirmar e esconder a inexperiência política que possa ter.

Assim, e na minha opinião, os movimentos farão sentido no dia em que forem verdadeiramente independentes em ideias e formas de actuar e estar. Isto não significa que estejam vedados a cidadãos com um passado político mas estes devem, no mínimo suspender ou anular a sua militância para prosseguirem outros projectos políticos em nome da transparência da actividade política.

Desta forma podemos ambicionar que mais pessoas sem herança política procurem actuar civicamente através destes movimentos pondo ao serviço das populações o seu know-how e skills adaptados à Política relançando assim o debate das questões que são verdadeiramente importantes e que não passam pela vontade de ser candidato ou pelo ego em função do trabalho.

Servir a causa pública deve ser o mote de todos os que se queiram dedicar à vida política.