Por Gustavo Martins-Coelho


Depois da moxabustão [1], na semana passada, hoje é dia de falar da homeopatia.

A par da acupunctura, de que já falei vastamente aqui [2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20], a homeopatia é capaz de ser a prática médica pré-científica mais divulgada; e, curiosamente, o seu princípio fundamental quase que roça o princípio subjacente às vacinas. Ora vejamos: a ideia da homeopatia é que uma coisa que provoca determinados sintomas numa pessoa cura esses mesmos sintomas, quando administrada em doses muito pequeninas; a ideia da vacinação é que uma coisa que provoca uma determinada doença pode ser administrada, de forma atenuada, a pessoas saudáveis, para prevenir essa mesma doença. A principal diferença é que as vacinas funcionam mesmo e a homeopatia não.

Excepto naquele caso da cunhada do amigo da prima de não sei quem, que foi ao homeopata e veio de lá curada… Há um nome para isso: chama-se efeito placebo. Ou psicoterapia: a verdade é que uma consulta com um homeopata inclui elementos usados pelos psicoterapeutas e pela semiologia clínica, que podem, além de maximizar o efeito placebo, ter mesmo um efeito psicoterapêutico positivo [21]. Mas, mesmo que isto seja verdade, talvez seja preferível procurar um profissional especializado em psicoterapia, do que contar com os bons conselhos do homeopata, junto com um frasquinho de placebo…

Fora isso, há montes de estudos sobre a homeopatia [22, 23]: nos últimos vinte anos, foram publicados mais de trezentos estudos! A vasta maioria deles foi incapaz de provar que a homeopatia funcionasse e os que conseguiram mostrar que a homeopatia fazia alguma coisa tinham duas características em comum: a primeira — graves falhas no método científico; e a segunda — o efeito era praticamente insignificante [24].

E por que é que não funciona? Bom, a principal objecção é que, depois de diluir o produto as vezes postuladas pelos manuais de homeopatia, já não resta mais produto para fazer efeito. Isto é Física pura; e nem os milagres contrariam as leis da Física! As explicações para que uma substância que lá não está faça um efeito contrário ao que faria, se estivesse, são bizarras, para não dizer disparatadas. Mais uma vez, a Física não permite que a água tenha memória; e chamar a equação de Langmuir ao barulho, como vi proposto num artigo científico recente, [25] é misturar alhos e bugalhos.

De qualquer forma, é preciso dizer-se que houve uma época histórica em que a homeopatia era melhor do que a medicina convencional: precisamente quando foi criada, pelo seu mentor, o médico alemão Samuel Hahnemann, no século XVIII [26]. Nessa altura, tendo em conta que o que os médicos convencionais tinham para oferecer eram sangrias e pouco mais, oferecer água — que, pelo menos, mal não fazia — foi um grande avanço. Só que a medicina evoluiu e tornou-se científica, enquanto a homeopatia ficou agarrada a um paradigma teórico que não tem, até à data, confirmação empírica — nem é plausível que alguma vez venha a ter, apesar dos esforços persistirem [27].

Já estou a chegar ao final deste espaço, por hoje, mas, antes de me despedir, vou falar do objecto do dia, que calha ser hoje as tampas à prova de criança.

Estou a falar daquelas tampas dos produtos de limpeza e outros do género, que abrem pressionando e depois rodando. Essas tampas foram introduzidas no início da década de 1970, nos Estados Unidos, aquando da aprovação pelo Congresso do Poison Prevention Packaging Act. Esta lei obrigava os produtos perigosos a terem embalagens que as crianças não conseguissem abrir.

A introdução deste tipo de aberturas difíceis permitiu salvar centenas de vidas de crianças, que, se não fosse a tampa da garrafa a impedi-las, teriam acabado a beber lixívia ou outras coisas que tais. Claro que nada é totalmente à prova de criança e continua a haver envenenamentos, mas são muito menos do que eram.