Por Gustavo Martins-Coelho


Na semana passada [1], não disse tudo o que queria sobre homeopatia; por isso, vou voltar ao tema esta semana.

Quanto ao mecanismo de acção, acho que estamos conversados: cada explicação é mais estapafúrdia do que a anterior [1]. Uma das mais recentes pretende relacionar o que acontece quando um doente deixa de tomar um medicamento — e os sintomas reaparecem — com o princípio básico da homeopatia (uma substância diluída cura os sintomas que causa, quando concentrada) [2]. Deve ser isso, ou, então, os sintomas voltam, precisamente porque já não está lá o medicamento que os tratava… Parece que até já tentaram convencer-nos de que é através de nanopartículas [3] ou do cheiro [4]! As nanopartículas, ainda vá que não vá; embora, em boa verdade, não passe duma hipótese, que precisa de ser muito investigada até se tornar numa teoria digna de crédito. Mas — o cheiro!? Primeiro, cheirar o que quer que seja dificilmente cura doenças que não estejam relacionadas com os órgãos dos sentidos, ou com o sistema nervoso (e estou a ser generoso). Segundo, não é possível cheirar o que lá não está; e, nos produtos homeopáticos, as leis da Física sobrepõem-se às alegações dos homeopatas [5, 6] e não deixam que haja mais, para além de água, que é inodora. Se não há uma substância activa presente, não há acção, porque a água não tem memória; e não vale a pena usar palavras difíceis [7, 8], para dar um ar científico à coisa, porque continua a não ser verdade.

Aliás, este «usar palavras difíceis» é o que mais me preocupa na homeopatia (e nas medicinas pré-científicas, em geral), porque traduz o facto dos seus defensores fazerem essa defesa atacando uma das mais belas construções da humanidade: o método científico [9, 10, 11]. Ao fazê-lo, contribuem para relativizar a ciência; contribuem para a realidade em que vivemos hoje, na qual mentiras passaram a chamar-se factos alternativos.

Ora, os factos sobre o papel da homeopatia, doença a doença, são estes:

  • Sobre a rinite alérgica, a generalidade dos estudos existentes são de má qualidade científica e revelam um efeito positivo igual ao tratamento convencional. O único estudo de qualidade aceitável diz que a homeopatia não funciona [12]. Tire as suas conclusões.
  • No cancro, não há estudos de qualidade e os existentes são inconclusivos [13].
  • Na gripe, lamento, mas o Oscillococcinum, que é feito de coração e fígado de pato selvagem, não provou funcionar melhor do que um placebo, nem na prevenção, nem no tratamento [14]; portanto, o que lhe posso recomendar, caro leitor, é que beba água da torneira, que sempre salva uns patos e poupa uns trocos.
  • Na fibromialgia, parece que ajuda um bocadinho, mas ainda é cedo para tirar conclusões definitivas [15].
  • No caso da doença inflamatória intestinal, os poucos estudos existentes têm entre trinta e 45 anos, resultados contraditórios e qualidade científica muito baixa [16].
  • As preparações homeopáticas de arnica revelaram ajudar um pouquinho no pós-operatório da cirurgia do joelho, mas, como de costume, são dados que carecem de validação [17].
  • Já nas dores após cirurgias dentárias, a erva-de-são-joão não demonstrou ter utilidade terapêutica sob a forma de preparado homeopático [18].
  • Os estudos existentes não permitem retirar conclusões definitivas em relação ao papel da homeopatia na otite [19].
  • Para acabar, o eczema: a homeopatia não tem qualquer utilidade [20].

Uma coisa que fica patente desta lista é que há muito poucas doenças que são estudadas isoladamente. Penso que é necessário que os estudos sobre o tema sejam mais parecidos com os que faz a indústria farmacêutica: um produto específico, uma doença concreta — e vamos ver o que acontece.

Para terminar, vamos falar da talidomida, o nosso objecto do dia para hoje. Em 1960, surgiram, na Alemanha, os primeiros relatórios de bebés nascidos com graves deformidades dos membros. Os casos começaram a acumular-se e, no ano seguinte, descobriu-se que esses bebés tinham algo em comum: as mães tinham tomado talidomida para aliviar os enjoos matinais, durante a gravidez — uma aplicação do fármaco que, note-se, nunca tinha sido testada. De modo que, em última instância, houve milhares de bebés que foram prejudicados pela talidomida. O principal efeito da talidomida, contudo, foi aumentar a segurança da medicina, pois as regras para autorizar a introdução de medicamentos novos no mercado passaram a ser muito mais apertadas e conduziram à realização de muitos ensaios clínicos, para verificar se os medicamentos realmente funcionavam e eram seguros, antes de poderem ser vendidos.

É também isto que se tem de fazer, em relação à homeopatia: aplicar as mesmas regras de introdução no mercado que se aplicam a todos os outros medicamentos. Até lá, não é justo dedicarmos recursos públicos, que poderiam ser usados em tratamentos comprovados cientificamente, ao financiamento de práticas cuja utilidade não está demonstrada [21].