Por Fábio Morgado


No início desta temporada, o meu melhor amigo disse-me que não ia ver os jogos da liga portuguesa, porque iria ser uma «palhaçada autêntica». Dizia isto, pelo que se estava a passar com o caso dos e-mails. Eu concordei que haveria muita conversa extra futebol e que o alvo seria o Benfica, para desmoralizar a massa adepta e os próprios jogadores, o que parece que funcionou numa fase mais inicial. O que não esperava era um clube, basicamente, vir a autodestruir-se.

Nos filmes de acção ou terror, quando um edifício — normalmente um laboratório — está cheio de agentes hostis — mortos-vivos ou assaltantes, por exemplo —, existe sempre um botão vermelho para iniciar uma sequência de autodestruição, com os inimigos lá dentro, de preferência. Bem, o que o Bruno de Carvalho fez, na Quinta–feira da semana passada, foi exactamente isso.

Em todos os trabalhos, corremos o risco de desagradar ao nosso superior, seja por erros infantis, por falta de profissionalismo, ou simplesmente porque não temos jeito para determinada tarefa. A mim, já sucedeu deixarem (até mais do que uma vez) chamadas de atenção na agenda do departamento onde trabalho; para mim, são embaraçosos e sinto-me incompetente!

Os jogadores do Sporting até nem se portaram mal em campo; foram duas falhas que comprometeram a equipa; e perderam contra um candidato a vencer a Liga Europa e que está em segundo lugar em Espanha. O Benfica, que perdeu por cinco golos contra uma equipa dum campeonato mais fraco que o nosso, é muito mais embaraçoso…

O Bruno de Carvalho não devia ter-se deixado levar pela emoção e criticar a equipa na praça pública, porque o Facebook tem uma audiência, não só nacional, mas global. Este senhor envergonhou, não só o seu clube, mas também o nosso campeonato, a nível mundial. Devia ter replicado a atitude dos seus homólogos em Portugal: o presidente do Benfica, no início da época, resolveu internamente o assunto do mau desempenho da equipa. Não veio a público criticar os jogadores; aliás, protegeu-os.

A reacção dos jogadores do Sporting é mais do que normal: defenderam-se e exigiram um pedido de desculpas público por parte do presidente. Este, que deveria ser o primeiro a defendê-los e a toda a estrutura do Sporting, ironicamente, foi o primeiro a mandá-los abaixo.

Disse recentemente [1] que um jogador de futebol não é um objecto passível de ser transaccionado, mas uma pessoa com sentimentos. Mais do que ninguém, os jogadores sentiram-se frustrados e, muito provavelmente, humilhados pelo resultado, porque quem joga quer sempre vencer.

A massa adepta está do lado dos jogadores, o que é muito negativo para o presidente, especialmente porque são os sócios que o elegem. Mesmo com o levantamento dos processos internos que haviam sido previamente instaurados aos jogadores, a posição do presidente está muito fragilizada e, se este se mantiver no poder, só estará a prejudicar a estrutura do Sporting Clube de Portugal.

O Bruno de Carvalho é um exemplo perfeito do que é um ditador: tudo tem de ser como ele quer; devem todos obedecer aos seus comandos; pode fazer o que quer e lhe apetece; só ele tem razão; e não sabe quando deixar o poder.

O Robert Mugabe, no Zimbabué, deixou o poder depois de ter tentado passar a liderança do país para a sua mulher. Será que o Bruno de Carvalho vai tentar fazer o mesmo?…