Por Hélder Oliveira Coelho


Agora, é gourmet fazer compras em mercearias de bairro. Serviço personalizado. Pois eu lembro-me de que, quando era pequeno, não existia outra alternativa. As grandes superfícies comerciais eram uma ficção. Recordo com alguma saudade aqueles dias. Não pelos dias em si, mas pelo que eles significavam. Junto à casa dos meus avós, existia um pequeno café, contíguo ao qual existia a mercearia.

Recordo-me de ouvir o meu pai contar histórias hilariantes a respeito de como se efectuavam as contas de somar na dita loja. Aquela célebre cantilena do 7 e 3, 15 e vai um. Eu ria, inebriado com a graça do engano. Desde que não fosse comigo! O merceeiro que eu conheci já não tinha estes vícios. Era um homem honesto. Não raras vezes, eu aguardava por que os meus avós me pedissem que fosse buscar algo à mercearia. Era certo e sabido que o troco era meu, em rebuçados. Nos idos da escola primária, ainda as moedas de dois escudos e cinquenta centavos existiam. Um rebuçado de mentol custava isso mesmo. Se o troco fossem dez escudos, eu sentia-me um homem rico em mentol! Curiosamente, a riqueza vinha sempre com bónus. O Narciso punha sempre uma mais-valia sob o meu lucro do dia.

Havia alturas em que eu já indagava com jeito maroto aos meus avós se não precisavam de que fosse à mercearia. Mais tarde, o negócio subia a parada. Já podia mascar pastilha elástica, como os crescidos. Contudo, essa via de pagamento era menos lucrativa. Uma pastilha custava cinco escudos. Ora, os dez escudos já só davam para duas pastilhas e o acrescento do mentol já não surgia. Pensei que, mal por mal, antes um punhado de rebuçados do que duas pastilhas. Sempre podia fazer render mais o lucro da viagem.

Um dia, subiram os preços e dei conta que o sr. Abel mantinha o mentol a dois e quinhentos. Ficava mais longe… Não obstante, compensava o esforço. Era o dobro em rebuçados e um homem valoriza estas coisas. Compreendi, pela primeira vez, o efeito da concorrência.

Nas trocas de menino, há sempre um conjunto de coisas que podemos trabalhar para o nosso futuro. Podia contar um cento de histórias em torno da riqueza da minha infância. O dinheiro tinha um peso muito menor. A consciência dele também era muito menos expressiva.

Há dias, lembrei-me desta história… Como o merceeiro teve impacto na minha vida. No fundo, foi a primeira vez que constatei que tudo tem um esforço individual efectivo.

Sempre prezei algum recato. Ser-se português e beirão é ter no recato um modo de estar na vida. Ainda assim, nas muitas crónicas de António Lobo Antunes [1], tenho atentado como o mesmo não tem grande pudor em transpor para o papel episódios pessoais da vida íntima ou familiar. No fundo, todos nós temos essas pontes para cumprir ou fazer cumprir.

Há dias, tive um congresso. A inscrição seriam quatrocentos euros, se fosse efectuada precocemente. Era em Barcelona. Com jeito, conseguiria viagens baratas; com oitenta euros, já faria a coisa. Tenho grandes amigos em Barcelona. Se eles me deixassem dormir no chão da sala, poupava o hotel, só gastaria o suficiente para andar nos transportes públicos, portanto vinte euros bastariam. Do aeroporto para o centro, ainda tenho de verificar se sai mais em conta o metro ou o autocarro, mas seguramente quinze euros chegariam. Há um curso do congresso que é pago à parte; são mais oitenta euros. Contudo, os oradores são peritos mundiais; vale a pena o investimento. A renda de casa são quinhentos euros. Posso pagar com cartão de crédito a inscrição… Portanto, não será um problema conjugar as contas da água, electricidade e gás. É chato é se tiver de comprar algum livro. A brincadeira andará entre os 150 e os trezentos euros. Todavia, se não comprar no congresso, onde fazem uns 20% de desconto, depois, em Portugal, pagarei muito mais. E 20% ainda são 20%! Vejo o meu recibo de ordenado e, este mês, até calhou bem: 1325 euros. Vou conseguir ir ao congresso sem pedir dinheiro aos meus pais. Talvez eu consiga fazer a coisa por menos. Em bom rigor, se me inscrever na sociedade que organiza o congresso, só tenho de pagar as quotas e posso aceder ao curso por metade do preço. Em bom rigor, se eu entrar na sala do congresso, para escutar os meus colegas falar, num momento de grande afluência, ninguém vai confirmar se estou inscrito. Posso sempre assistir às palestras. Não terei certificado, mas pouco importa: ao menos, escuto as conferências.

Tenho trinta anos… Sou médico… Depois dos doze anos de liceu, fiz mais seis de licenciatura, dois de mestrado (e estes não eram obrigatórios para exercer; foi mesmo vontade de aprender). Seguiu-se um ano de internato geral e quatro de internato de especialidade. Já só falta mais um para ser especialista… Anseio pelo dia em que vir o meu ordenado chegar aos 1500 euros: vou poder começar a poupar dinheiro… Finalmente! Acabarão os tempos de merceeiro! Como especialista, deixo é de poder ter descontos nos congressos… Os preços vão subir para o dobro…

Não faz mal! Afinal, para que quero eu estudar mais e estar actualizado?!

Ah! Claro… Para poder tratar melhor os meus doentes… Claro… Cabeça a minha…

Tratar bem os meus doentes…

Posso lá eu fazer isso… Eu mal sirvo para ser merceeiro!

Saudades do tempo da mercearia… Nesses tempos, a vida concentrava-se em rebuçados de mentol. Os sonhos começavam pela batuta do Vitinho…