Por Gustavo Martins-Coelho


Atravessei a rua do Coliseu na passadeira. Chama-se Rua de Passos Manuel. Não sei o que as pessoas têm contra a toponímia [1, 2].

Devo ser o único cidadão a usar aquela passadeira. O único, mesmo. No mundo inteiro. Os ingleses, práticos como sempre, até têm um nome para isso que toda a gente faz: jaywalking. Entre nós, não é o facto de não termos equivalente verbete que nos impede de jaywalkar abundantemente.

Atravessei a Rua de Passos Manuel na passadeira. Do outro lado, junto ao passeio a que pretendia aceder, uma carrinha parada em cima da minha passadeira, com o condutor dentro, bloqueava-me a passagem. Continuei a atravessar a rua e, à medida que me aproximava do veículo parado, um plano começou a delinear-se na minha imaginação. Achei que valia a pena pô-lo em prática. Cheguei ao pé da viatura, parei e abri os braços, enquanto perguntava ao motorista por que é que, estando eu na passadeira, não podia atravessar a rua, já que tinha um obstáculo a impedir-me. Ele ficou, aparentemente, muito incomodado, gesticulou, para manifestar o seu desagrado, e desviou a carrinha, para eu passar. Se eu podia ter contornado a dita? Podia, mas não era a mesma coisa…

Chegado ao Coliseu, perguntei, esperançoso, ao senhor da bilheteira, que (vim a perceber no decurso da minha interacção com ele) tem vocação para mimo:

— O concerto de logo à noite ainda não esgotou?

Fazer perguntas na negativa aumenta a probabilidade de obter respostas negativas. Neste caso, era o que eu queria.

— Não sei — respondeu-me, medindo bem cada palavra. — O sistema informático está inoperacional e não conseguimos vender bilhetes.

Em boa verdade, ele não usou a palavra «inoperacional», porque heptassílabos não são o seu forte. Nem sequer monossílabos: o que fez foi limitar-se a apontar, enquanto proferia parcas palavras a peso de ouro, para o letreiro colado no vidro da bilheteira, que dizia o mesmo de forma mais bonita e elaborada, mas também não falava em «inoperacional». A sua vocação de mimo veio ao de cima naquele esgar de quem diz:

— Não sabes ler, madraço? — enquanto apontava.

Achei que um esclarecimento da minha parte era oportuno, visto que a minha pergunta fazia todavia algum sentido, mesmo depois de ter lido de antemão o tal aviso, que ele acabava de me indicar, julgando conduzir-me a uma enorme descoberta da verdade oculta:

— Pois, eu tinha de facto visto o aviso sobre o sistema informático, mas o concerto poderia já estar esgotado antes do sistema ir abaixo e, nesse caso, talvez se lembrasse do estado da sala e soubesse dizer-me se está esgotado — expliquei, puxando de toda a minha simpatia por aquele deprimente resto de humanidade.

O senhor da bilheteira fez o que sabe fazer melhor: ficou calado, perscrutando-me com o olhar, tentando comunicar por mímica subtil, ou talvez mesmo por telepatia. Ele tinha, indubitavelmente, vocação para mimo! Perante aquele monstruoso silêncio, senti a imperiosa necessidade de prosseguir o meu discurso. O silêncio, numa bilheteira, incomoda. Perguntei, então:

— Tem alguma informação sobre a previsão de quando o sistema informático voltará a estar operacional e poderá vender-me bilhetes para logo à noite?

Comprovei depois que esta minha pergunta era perfeitamente disparatada, quando o senhor da bilheteira me respondeu:

— Não sei quando voltaremos a ter sistema informático, mas estamos a vender bilhetes manuais para a plateia em pé, se quiser.

Pensei:

— Se estão a vender bilhetes manuais, é porque não está esgotado. Não podias ter dito logo isso quando te perguntei, meu grandioso boi-almiscarado?

Disse apenas:

— Quero.

A culpa não morre solteira. A culpa é sempre do sistema.

O concerto foi bom.