Por Gustavo Martins-Coelho


Há tanta coisa para dizer! Podia, por exemplo, comentar o relatório do inefável Goldman Sachs, que marca mais um ponto no seu desvario adorador do dinheiro acima de todas as coisas e sobretudo da vida humana, ao questionar se vale a pena, do ponto de vista económico, curar pessoas [1]! Se dá mais lucro oferecer um tratamento que cura uma determinada doença, ou deixar a pessoa a padecer dela o resto da vida e ir-lhe vendendo paliativos! Ponto número um: é óbvio que ter um doente crónico a pagar uma renda certa durante toda a vida é mais rendível; é preciso um doutoramento em Economia para descobrir isto?! E — ponto número dois: que psicopata faz uma pergunta destas e não sente nojo de si mesmo??

Se a actualidade internacional não interessar ao leitor, então podia falar do último concurso para colocação de médicos no Serviço Nacional de Saúde [1]. Era um concurso destinado aos médicos que tinham acabado a especialidade no ano passado. Uma parte das vagas que abriram ficou por preencher, porque, entre o fim da especialidade e o início do concurso, passou tanto tempo que muitos médicos encontraram alternativas de emprego no sector privado e no estrangeiro. Gastou-se dinheiro público a formar estudantes de medicina, gastou-se dinheiro público a formar médicos especialistas e, no final, deitou-se isso tudo pela janela, não os contratando para o serviço público; ou melhor, atrasando de tal forma essa contratação, que, quando ela aconteceu, já era tarde e Inês morta! Não se pode deixar as pessoas quase um ano penduradas, à espera de que abra um concurso; e não se pode, porque, como é mais que natural, as pessoas procuram emprego noutro lugar…

Ou podia falar do novo regime do internato médico [2] e das mudanças que introduz na maneira como se formam novos médicos especialistas; nomeadamente, a grande mudança, que é a criação (que, em boa verdade, já estava em curso), dum contingente de médicos indiferenciados, pau para toda a colher e que, em última instância, acabarão por sair mais caros ao SNS.

Até podia falar de como o ministro da saúde se tornou uma não-figura governamental [3], um leão à entrada [4] e um cordeiro à saída [5], cujo maior feito foi criar uma licenciatura em medicina tradicional chinesa [6]

Mas, pegando nesta questão da medicina tradicional chinesa, vou antes concluir o tópico da homeopatia, outra medicina pré-científica, que me tem ocupado nas últimas semanas [7, 8], porque isto de deixar coisas a meio não é bonito.

Vou começar pelos riscos, porque já vimos que efeitos curativos não tem. Parecem ser muito reduzidos [9, 10] (valha-nos ao menos isso). Penso que o maior risco é mesmo o doente que recorre ao homeopata achar que está a ser tratado e não precisa de ir ao médico — e, assim, abdicar dum tratamento que lhe poderia salvar a vida.

Onde a homeopatia também tem sido usada é na pecuária, como forma de reduzir o consumo de antibióticos. Porém, tal como no caso dos seres humanos, não conseguiu, até à data, demonstrar inequivocamente utilidade na redução das infecções de que o gado, nomeadamente bovino, suíno e aves, sofre [11, 12]. Vá, parece que os porcos que bebem produtos homeopáticos sofrem menos diarreia [13]

Seja como for, a boa notícia é que os animais de laboratório usados em experiências científicas de produtos homeopáticos também não sofrem muito mais do que uma boa hidratação [14]… Falando em laboratório, a homeopatia tem feito experiências também em laboratório, com células e tubos de ensaio e tudo [15]; e até as plantas são usadas como cobaias para a investigação científica sobre homeopatia [16]! Acho que só falta mesmo tentar a homeopatia em pedras, para termos a certeza de que não funciona…