Por Fábio Morgado


Esta última semana foi marcante, na actualidade global. A meu ver, começou uma nova guerra fria. Ou, se calhar, ela já estava em curso e só agora demos conta disso. A intervenção militar efectuada pelos Estados Unidos, pela França e pela Inglaterra assenta na alegação de que o governo sírio dispõe de armas químicas proibidas e as usa contra civis, enquanto a Rússia, a China e o governo de Damasco afirmam que quem possui tais armas são os rebeldes. Existe muita contra-informação e não sabemos até que ponto estamos a par, de facto, da realidade.

Não pretendo tomar partido, pois não gosto de opinar sem estar na posse dos factos, mas, independentemente de quem tenha razão (se é que alguém tem razão), qualquer atitude bélica é prejudicial. Analisemos a questão por partes.

Os Estados Unidos da América são das nações que mais dinheiro gasta com as suas forças armadas — dinheiro esse que poderia financiar outras áreas, tais como a saúde ou o investimento. Os EUA nada têm a ganhar na questão síria, apenas pretendem proteger vítimas indefesas — ou, pelo menos, isso querem fazer parecer. É óbvio que vão beneficiar, se o resultado desta intervenção for positiva, em termos da exploração dos recursos energéticos sírios, como sejam o gás natural e o petróleo.

Na Europa, além da despesa, num continente onde a crise continua ao virar da esquina, existe um impacto social: se já existe uma crise de refugiados, esta guerra só irá agravar essa situação. A inclusão involuntária dos refugiados na sociedade europeia pode levar ao crescimento do racismo e da xenofobia, porque existe o estereótipo de que todos os árabes são terroristas.

A nação russa, ao entrar neste conflito, vê a sua moeda perder valor face ao euro e ao dólar, o que leva a um empobrecimento real do povo russo, por via do aumento dos preços das importações, e a dificuldades orçamentais públicas, por via da redução de receita do petróleo e do gás. Se a Rússia quiser importar, terá de gastar mais dinheiro; e quem exportar receberá menos dinheiro.

Esta situação toda traz-me à memória um jogo de estratégia militar, o «Command & conquer: red alert», no qual os Aliados, que usavam cor azul e eram compostos pelos Estados unidos e pela Inglaterra, entre outros, estavam em guerra com os comunistas, de cor vermelha, que integravam a Rússia, a China e países dominados por aqueles.

Se olharmos à nossa volta, este padrão de cores repete-se: na saga da «Guerra das estrelas», a cor dos lasers dos rebeldes, que são os bons da fita, é azul; a do Império é vermelha. Num panfleto médico, a cor vermelha, normalmente, representa dor; a azul representa o oposto. Até no futebol, estas cores fazem parte das maiores rivalidades: o superclássico mundial entre o River Plate e Boca Juniors; Manchester City e Manchester United; e, cá em Portugal, o Benfica e o Porto.

Este fim-de-semana que passou teve direito a mais este clássico do futebol português, um jogo que pode ter definido uma época, tanto para Benfica, como para o Porto. E, curiosamente ou não, em Portugal, também se vive um clima de guerra fria, como a guerra com que abri este artigo, mas entre os clubes mais fortes do País. A guerra fria, seja a antiga, a actual ou a do futebol, baseia-se em atacar o inimigo indirectamente, apoiando forças mais fracas. No futebol, é através do empréstimo de jogadores a equipas do meio da tabela, para estas tentarem bater o pé ao rival.

Para se sobreviver neste tipo de clima, é necessário ser mentalmente forte, considerarmo-nos sempre os melhores. Para isso, grande parte da guerra fria entre os EUA e a URSS consistia em propaganda; e é assim que o Porto sobrevive a vir à luz jogar e ganhar. O Porto tem uma mentalidade de confiança (que muitas vezes roça a arrogância): não duvidam de que são os melhores, mesmo nos piores momentos. É uma mentalidade de sucesso, seja em que contexto for, e nunca vi um líder bem sucedido sem esta característica.