Por João Pedro Roncha


«Amistad» é um filme que retrata uma história muito forte em termos emocionais, dirigido por um cineasta que dispensa apresentações. Spielberg, que reconhecemos a título justo como um dos maiores directores de películas de todos os tempos, gravita durante os 155 minutos do filme e apresenta-nos esta obra, a meu ver, genial e intemporal.

A questão racial e a opressão entre seres humanos é um tema que encontra ressonâncias na contemporaneidade e representa uma discussão que aparentemente nunca encontrará fim. A sina da humanidade. O mote é uma rebelião de escravos africanos realizada a bordo da embarcação espanhola «La Amistad», uma escuna de dois mastros, com 37 metros de comprimento, que vê a maior parte da tripulação europeia morta pelos homens aprisionados. Por não conhecer as regras náuticas, o grupo deixa dois espanhóis vivos, tendo em vista sobreviver no oceano e traçar a rota de retorno. O problema é que são capturados e retornam à condição anterior, agora com uma sentença para pesar nas suas vidas, que já não são nada tranquilas.

Diante da situação exposta, os homens africanos escravizados serão julgados pelos magistrados brancos americanos. Vêem-se assim sujeitos ao julgamento de outros seres humanos que deliberam sobre os seus respectivos destinos. O contexto histórico, marcado por um tratado oceânico entre os Estados Unidos da América e Espanha, aumenta a tensão geopolítica, pois a Rainha de Espanha alega que os escravos pertencem ao seu reino, mas os marinheiros americanos que encontraram a embarcação reforçam que o «material humano» pertence aos americanos.

Na história, os brancos não se interessam pela causa dos escravizados, homens humilhados que nem sequer conseguem esgueirar-se nos porões das embarcações; imagine-se conviver diante de tanta miséria e fome, marcas de um povo acorrentado física e politicamente, diante de um dos maiores absurdos da história da humanidade.

Cinqué, magnificamente interpretado por Djimon Husson, é o protagonista da rebelião: ele consegue escapar das correntes graças ao apoio dos demais traficados. Ao atacar a tripulação, próximo de Cuba, toma as rédeas da situação por alguns instantes, mas logo é levado ao estado anterior. Presos novamente, os réus precisam de lidar com um tribunal desinteressado nas suas motivações. Uma possível Guerra Civil poderia estourar a qualquer momento e as questões políticas aquecem as decisões durante o julgamento. Por ser época de reeleição, num momento de pessoas divididas entre o Norte abolicionista e o Sul esclavagista, até mesmo a decisão do juiz em prol dos africanos passa por momentos de imprecisão, pois o Supremo Tribunal Americano, envolvido até não poder mais com os sulistas, dificultou a tramitação do processo. O advogado Roger Baldwin, interpretado por Matthew Mcconaughey, é favorável ao movimento abolicionista. O grande Anthony Hopkins é o ex-presidente estadunidense que recorre aos trechos da Constituição para reforçar o seu ponto de vista. Morgan Freeman é um ex-escravo Theodore Joadson e Stellan Skarsgard é Tappan, ambos também simpáticos ao movimento, integrantes do grupo que deseja a libertação dos julgados.

Spielberg dirigiu o roteiro escrito por David Franzoni, dramaturgo conhecido pelo seu trabalho em outro épico sobre seres humanos subjugados: o filme «Gladiador». A equipa técnica consegue emular alguns detalhes da época, apresentados ao público graças ao eficiente trabalho de Janusz Kaminski, director de fotografia competente, ciente do potencial da história e certeiro nas cenas externas e internas, sempre atento ao que precisa ser mostrado na narrativa. Conta também com o igualmente eficiente sector de design de produção, assinado por Rick Carter, profissional que conta com a dupla formada por Rosemary Brandeburger e Trish Luberti no desenvolvimento da cenografia, sector que contempla bem o momento histórico, o interior dos navios e os tribunais. Os figurinos de Ruth E. Carter também merecem destaque, pois vestem bem os personagens e permitem o mergulho épico ao espectador. A música de John Williams, por sua vez, continua fascinante, mas sem o brilho dos trabalhos anteriores.

Lançado em 1997, «Amistad» é sem dúvida um dos maiores filmes de Steven Spielberg, e apenas coincidiu com o lançamento, no mesmo ano, de «Titanic», de James Cameron.