Por Fábio Morgado


Tudo o que é bom tem um fim e isso também se aplica a este espaço de opinião [1]. Não é o seu fim, pois continuarei a escrever para o próximo campeonato, mas, como este termina este fim-de-semana, entro agora numa fase de interregno.

Sempre procurei entreter as pessoas com os meus artigos, apesar de, algumas vezes, devido à conjuntura futebolística do momento, me ter sentido obrigado a escrever peças mais sérias. Esta semana, poderia falar dos sumaríssimos, que são castigos aplicados após o jogo e que estiveram em voga há cerca de dez anos, mas recuso-me: quero terminar a minha primeira temporada na Rua da Constituição [2] com um artigo esperançoso, em vez de crítico.

A minha esperança para a próxima época é de que o futebol seja limpo e jogado apenas dentro das quatro linhas.

Atenção: o que está em curso na justiça não é para ser abafado; se o caso dos e-mails, muito falado nesta época, vier a produzir condenações, sou a favor da punição ao Benfica com a perda dos títulos e mesmo a descida de divisão. Eu esforço-me no dia-a-dia por dar o meu melhor e espero o mesmo do clube que apoio. Recuso apoiar batoteiros.

Falo do Benfica, mas também posso referir-se ao Porto, com os alegados aliciamentos a guarda-redes adversários no fim desta temporada, ou ao Sporting, com as queixinhas [3] que criam sumaríssimos.

Tudo isto tem de acabar. Uma coisa são o direito à opinião e a liberdade de expressão, outra é trazer o pós-jogo para o centro da atenção, coisa que não interessa à maioria da população. Eu acabei por também escrever sobre o assunto, não porque a isso fosse obrigado, mas antes porque achei que era um tema demasiado grave para ser ignorado.

A minha esperança é que estes temas deixem de merecer a atenção generalizada que têm tido. Não é este o espírito do futebol. Na próxima época, espero que o que acontecer no campo de negativo seja resolvido dentro de quatro paredes. Espero que a época não comece com novas acusações; sendo agora o Porto, o campeão, seria mau ver o Benfica e o Sporting atentarem contra a mentalidade, o espírito e a concentração portistas.

A única coisa que tem de valer são os esforços dentro do campo. As manigâncias fora do campo devem ser punidas. O debate sobre o futebol deve também ele fazer-se com mais elevação. Os programas televisivos que temos são uma vergonha. É natural que queiramos falar do nosso clube, mas não naqueles termos, nem daquela forma. Por que não criarmos um fórum oficial e regulamentado, uma espécie de assembleia onde os presidentes dos clubes possam debitar todas as suas ânsias e queixas? Um pouco como acontecia num filme que vi, «A purga», em que, uma vez por ano, o crime não é punível. No resto do ano, tudo funcionava bem e, naquele dia, os criminosos saíam à rua. Talvez seja isso de que precisamos para ter um ambiente futebolístico mais tranquilo: um dia por mês para os clubes dizerem tudo o que lhes vai na alma — e, no resto do tempo, ficam sossegados e deixam jogar.

Devo confessar que desfrutei mais do que esperava de ter este meu pequeno espaço. Planeio voltar no início da próxima época ou, quem sabe, mais cedo, caso aconteça algo fantástico, como Portugal ganhar o Mundial. Quero agradecer ao meu amigo Gustavo [4] por me dar a oportunidade de exprimir a minha opinião neste espaço e, acima de tudo, o trabalho editorial que ele faz. Uma parte não despicienda do sucesso destes artigos é mérito dele, porque consegue perceber o que quero dizer e ajuda-me a fazer fluir o meu pensamento. Quero aqui deixar o meu agradecimento público, não só pelo que já referi, mas também por ser o tipo de amigo que está sempre lá para nós e que nos ajuda a evoluir, em mais do que uma área ao mesmo tempo. Além da oportunidade de publicar a minha opinião, escrever neste espaço contribuiu também para melhorar a minha escrita e isso reflectiu-se positivamente na minha vida profissional.

Muito obrigado, Gustavo!