Por Gustavo Martins-Coelho (com Ana Sofia Silva)


Não sou de comentar a espuma dos dias. Já temos demasiados comentadores na praça e não tenho vocação para dizer e desdizer [1] a mesma coisa. Além disso, parece-me que há debates mais importantes a fazer do que o vestido da Rita Pereira [2] e prefiro dedicar o meu tempo a embrenhar-me nos ditos.

Mas, por vezes, acontecem coisas que me dão ensejo de me pronunciar numa perspectiva mais vasta [3, 4, 5], ou de debater os princípios subjacentes aos factos [6, 7], ou que, simplesmente, são demasiado importantes ou graves para lhes passar por cima [8].

Os acontecimentos de ontem em Alcochete são um destes casos — e também um pouco dos anteriores. Além de ser uma situação demasiado grave, é também um sintoma dum mal mais vasto e que justifica o princípio que vou enunciar de seguida: o futebol devia ser interditado.

O futebol é um antro de malfeitores. Periodicamente — de forma demasiado habitual, a bem dizer —, vêm a lume notícias dos mais variados foros que confirmam o que acabo de dizer, a começar pelos dirigentes desportivos.

Relembremos, por exemplo, esse grande senhor, de seu nome Vale e Azevedo, que presidiu ao Benfica e acabou preso, depois de andar foragido pelo Reino Unido. No final dos anos noventa, desviou 193.000 contos da transferência do guarda-redes Serguei Ovchinnikov do Benfica para o Alverca, para comprar um iate para si em Itália, através duma empresa offshore com sede nas Ilhas Virgens Britânicas [9]. Mas este não foi o único desvio de dinheiro no âmbito de transferências de jogadores: houve mais quatro — Scott Minto, Gary Charles, Amaral e Tahar —, que lhe renderam quatro milhões de euros que deviam ser do Benfica [9]. Não satisfeito, desviou mais cinco milhões de euros durante a venda dos terrenos Sul do Benfica à empresa Euroárea [9]. Sendo um homem polivalente, também burlou, enquanto era presidente do Benfica, um cliente do seu escritório de advocacia, por causa dum imóvel no Areeiro [10], e, mesmo antes de ser presidente, também já tinha desviado dinheiro no caso Ribrafia [11], o que talvez devesse ter feito desconfiar os sócios que o elegeram…

O Apito Dourado demonstrou que a corrupção é um mal geral: começa nas ligas principais e vai caminhando escalões abaixo, pela II Divisão B, pela Liga de Honra e pela III Divisão, até chegar aos campeonatos distritais e de juniores e estendendo-se às autarquias [12]. Num caso do mesmo processo, o chamado caso do envelope, em Gaia, arquivou-se o que depois acabou por ir a julgamento, após decisão superior no Ministério Público [13]. Eu pergunto-me se não haverá por aí um procurador, em Gaia, que tenha sido aliciado para se pronunciar por esse arquivamento inicial, apesar de posteriormente revertido… Entretanto, o desenrolar do processo, que terminou com a absolvição dos réus, Pinto da Costa, o empresário António Araújo e o árbitro Augusto Duarte, ficou marcado pelos insultos e uma tentativa de agressão contra a testemunha principal, a ex-mulher do Pinto da Costa, Carolina Salgado, e pelo facto da sua irmã gémea ter admitido que foi paga para mentir [14].

No âmbito do Apito Final, em 2008, o João Loureiro, ex-presidente do Boavista, foi castigado com quatro anos de suspensão e uma coima de 250 mil euros pela Comissão Disciplinar da Liga, que determinou ainda a descida de divisão do clube e uma multa de 180.000 euros a aplicar ao mesmo [15]. No âmbito do mesmo processo, o Pinto da Costa foi castigado com dois anos de suspensão da actividade de dirigente e multa de 10.000 euros [16]; e o FC Porto perdeu seis pontos e foi multado em 150.00 euros [15]. Por sua vez, a União de Leiria perdeu três pontos e pagou uma multa de 40.000 euros. O seu presidente, João Bartolomeu, ficou suspenso durante um ano [15]. Tudo por corrupção e coacção de árbitros por parte dos dirigentes dos clubes.

Mas não são só estes três clubes que andam a corromper árbitros, como já se viu no Apito Dourado. O presidente do Benfica também foi apanhado nas escutas de então [17] e o caso dos emails veio confirmar que também o Benfica terá montado uma rede de contactos para influenciar as classificações e as nomeações dos árbitros, envolvendo a SAD, o ex-árbitro Adão Mendes, o antigo director de conteúdos da BTV Pedro Guerra e com ramificações para o presidente Luís Filipe Vieira, o director do departamento jurídico do Benfica Paulo Gonçalves, o ex-árbitro e então delegado da Liga de Clubes Nuno Cabral e o antigo responsável pela classificação dos árbitros Ferreira Nunes [17, 18]. Como se não bastasse, o Paulo Gonçalves acabou detido pela Polícia Judiciária por suspeita de ter subornado três funcionários judiciais para lhe fornecerem peças processuais do mesmo caso dos emails [18]… Pelo caminho, fica também a oferta de vales de refeições e uma camisola de Eusébio aos árbitros que apitam no Estádio da Luz e que é significativa, apesar do Tribunal Arbitral do Desporto achar que «as ofertas não eram feitas de molde a colocar em causa a integridade e a credibilidade dos referidos agentes desportivos, nem tão pouco aptas a afectar a imparcialidade dos mesmos e, com isso, a verdade desportiva» [17].

Além da corrupção de árbitros, parece que o Benfica também se dedica à corrupção de jogadores: o Benfica está a ser investigado por ter pago a jogadores do Rio Ave para perderem um jogo contra os encarnados na 31.ª jornada da Liga 2015–16 [17].

Isto é só uma parte das malfeitorias dos dirigentes desportivos. No próximo «Muro das lamentações» [19], continuarei a elencar mais algumas razões por que o futebol é um cancro da sociedade; e, por tal motivo, deve ser removido, sob pena de matar o hospedeiro.