Por Fábio Morgado


Esta semana, fui ver o «Deadpool 2». É uma sequela muito boa; evitou basear-se em muita comédia, como o primeiro, e tem mais acção. Decidi então fazer a minha própria sequela a um dos artigos já publicados neste espaço [1].

Nesse meu artigo [2], defendi que o Bruno de Carvalho era um ditador. Desta vez, vou explicar como ele se veio a tornar este tal ditador. Imagine o leitor que esta sequela é uma prequela, que conta a origem do herói — ou vilão, dependendo do ponto de vista.

Eu não acho que o Bruno de Carvalho estivesse a fazer um mau trabalho como presidente. Apesar da falta de títulos no futebol, o Sporting sempre foi um dos maiores clubes a nível mundial, a ganhar títulos com as suas diversas modalidades, desde o atletismo, em todas as suas vertentes, até ao futsal, passando, este ano, pelo andebol (apesar das suspeitas de jogos comprados), além de muitos outros desportos que não menciono, mas em que o Sporting participa e ganha títulos regularmente.

O Bruno de Carvalho manteve estas tradições e foi ainda mais além, roubando atletas importantes ao seu maior rival. Aproveitou-se dos contratos que estavam perto do fim e ofereceu ordenados muito apetecíveis a atletas que não são de futebol. O maior destaque vai para o Nelson Évora, o nosso menino de ouro do salto em comprimento, que não precisa de apresentações e trocou o Benfica pelo Sporting. O Sporting também tentou contratar a judoca Telma Monteiro, mas esta preferiu permanecer ligada às águias.

Poderia ter referido mais situações, como a do Jorge Jesus, do Ricardinho, do Fábio Coentrão; mas o ponto a que quero chegar é: o Bruno de Carvalho conseguiu agitar a nação sportinguista com estas contratações, que, além de reforçarem o clube, tiveram o muito apreciado efeito secundário de enfraquecerem o principal rival — o Benfica; e, mais impressionante, conseguiu gerar lucro no clube de Alvalade, através da valorização de jogadores de futebol, como, por exemplo, o João Mário, vendido por quarenta milhões — o jogador português mais caro de sempre a sair de Portugal; nem o Cristiano Ronaldo!!

À primeira vista, o leitor pode considerar esta uma analogia exagerada, mas a verdade é que o Adolfo Hitler também pegou numa nação destruída, soube estimular o seu povo, recuperar a sua economia — e tornou a Alemanha de novo uma super-potência a nível mundial. O problema foi que, quando a coisa começou a dar para o torto, devido ao Holocausto e a estar a perder a guerra, em vez de se render e acabar com tudo, manteve-se agarrado ao poder até ao suicídio.

Não penso que o Bruno de Carvalho já tenha chegado ou vá chegar a esse ponto, mas é certo que o herói se tornou vilão, no mundo sportinguista. As suas acções estão a prejudicar o clube e ele tem de se aperceber de que, por muito sportinguista que seja e por muito que tenha feito pelo clube, o clube não lhe pertence. Como Maquiavel escreveu, «poder absoluto corrompe absolutamente» — e o Bruno de Carvalho é vítima dessa realidade.

Ao falar com uma colega minha de trabalho, conversa que deu origem a este artigo, ela contou-me um facto que viu num programa de televisão e que, a ser verdade, explica em parte a atitude do presidente sportinguista. Segundo a minha colega, o Bruno de Carvalho sempre andou de trabalho em trabalho à boleia dos amigos. No Sporting, ele ganhou e fez o que fez sem ajudas, de modo que, agora, sente-se uma pessoa importante, com poder, imprescindível até, e não quer abandonar esse poder, tal e qual um ditador.

Mas o presidente do Sporting devia lembrar-se duma frase proferida no filme «O Cavaleiro das Trevas» (o leitor já sabe que eu, sempre que posso, lá venho com uma referência cinematográfica):

Ou se morre como herói, ou vive-se o bastante para se tornar o vilão.