Por Fábio Morgado


Com o futebol português mais tranquilo e com o Mundial à porta, irei concentrar-me no mais importante torneio do desporto-rei.

Eu já referi anteriormente [1, 2, 3] neste espaço [4] que uma selecção é o espelho da cultura do seu povo; os jogadores trazem para campo as melhores e as piores características da sua sociedade e da sua cultura. Este artigo que hoje escrevo será o primeiro de dois em que irei analisar as equipas de cada grupo e dar a minha opinião e, se possível, apresentar uma analogia histórica.

O grupo A é composto pela anfitriã, a Rússia, e pelo Egipto, pela Arábia Saudita e pelo Uruguai.

Este grupo é muito interessante, não pela qualidade das equipas, mas pelas diferenças dos seus povos. Temos a frieza russa contra o sangue quente latino do Uruguai e a intensidade egípcia e saudita. Penso que este grupo será um dos mais conflituosos. Vejo qualquer uma destas selecções a jogar duramente dentro do campo, muito devido aos seus temperamentos: os latinos são muito agressivos a jogar; os países do Médio Oriente têm um fanatismo quase religioso, não muito diferente do fanatismo islâmico, que transmitem no seu jogo — dedicam-se 110 %; e, por fim, a Rússia, a jogar em casa, quererá mostrar a sua raça. Serão todos jogos voláteis.

No grupo composto por Portugal, Marrocos, Irão e Espanha, o jogo mais intenso será o Portugal vs. Espanha. Não se trata apenas dum jogo de futebol entre selecções: tanto nós, Portugueses, como os Espanhóis sabemos que a nossa História está de mãos dadas. Houve conflitos sangrentos, conquistas e derrotas de lado a lado; o jogo de futebol entre estes dois países é mais uma batalha contra o frenemy — não há uma tradução exacta deste anglicismo para Português; descreve aqueles amigos com uma rivalidade demasiado intensa.

Irão e Marrocos não têm muita história com Portugal e Espanha e não são sequer potências nas suas confederações. A única curiosidade é que o treinador do Irão é o português Carlos Queiroz — o mesmo que foi despedido do comando da nossa selecção há uns anos (e dizem as más línguas que os próprios jogadores não jogaram o que podiam para mais depressa entalarem o treinador). Poderá haver um certo sentimento de vingança vindo do Irão, motivado pelo seu seleccionador.

O grupo C é composto pela França, pela Austrália, pelo Peru e pela Dinamarca.

Não existem relações históricas entre estes quatro países, mas a arrogância francesa irá sobrepor-se à intensidade latina do Peru e à frieza dinamarquesa. A Austrália, representante da Oceania, será uma selecção esforçada, mas, sem muita cultura futebolística, será presa fácil — no papel; na realidade, é bem capaz de surpreender dentro de campo: esforço e dedicação sempre superam talento sem dedicação.

Passemos ao grupo D, composto pela Argentina, pela Islândia, pela Croácia e pela Nigéria.

Será um grupo muito interessante de se seguir. A Argentina é, sem dúvida, uma das selecções com melhor ataque no torneio, mas pode dizer-se o oposto da sua defesa e até mesmo meio-campo defensivo. Os únicos de renome são o Otamendi, que é defesa central do campeão inglês Manchester City, e o Mascherano, que já não está no topo da sua capacidade física. A Argentina irá defrontar equipas europeias que são culturalmente mais frias. Se a Islândia e a Croácia conseguirem deixar a equipa argentina nervosa, poderão capitalizar no seu ponto fraco, a defesa.

A Nigéria poderá surpreender. Apesar de não ter os jogadores mais talentosos, tem jogadores extremamente rápidos e fisicamente poderosos, no que parece ser um traço racial de todas as selecções africanas. Um estudo feito pela conceituada Universidade Duke [5] argumenta que o facto dos Africanos terem braços e pernas maiores e o centro de gravidade mais alto dá mais estabilidade em corrida.

A festa do mundial é um dos melhores lugares para notarmos as diferenças culturais de cada país, mas admito que seja um pouco difícil, quando os nossos olhos apenas estão na bola e não nas atitudes dos jogadores.