Por Gustavo Martins-Coelho


Quando, há duas semanas [1], falei da Junta de Freguesia do Areeiro, achei que, hoje, iria estar a desmontar mais alguma pseudociência em torno das medicinas alternativas [2]. Mas, entretanto, aconteceram várias coisas interessantes, em termos de actualidade na área da saúde, que me parecem merecer alguma atenção, de modo que vou ter de mudar completamente a agulha…

Assim sendo, hoje, vamos reflectir um pouco sobre a recente polémica em torno duma curta-metragem (penso que lhe podemos chamar assim) que a Direcção-Geral da Saúde lançou na Quarta-feira passada nos cinemas e nas redes sociais [3] e que há-de chegar às televisões lá mais para o fim do ano [4].

O secretário de Estado Adjunto da Saúde Fernando Araújo admitiu que o objectivo do filme era chocar [3] e parece que conseguiu… Logo no próprio dia da apresentação, a deputada Isabel Moreira classificou o filme como misógino, culpabilizante das mulheres e inadmissível e apelou a que fosse retirado [5]. O Bloco de Esquerda não lhe quis ficar atrás e disse mesmo que o papel das meninas filhas, vistas como princesas, é estereotipado e sexista [4].

Entretanto, a Directora-Geral da Saúde já veio defender a película e explicar que a mesma é dirigida a um público alvo específico — as mulheres jovens —, porque neste grupo da população o consumo de tabaco está a aumentar, ao contrário do que sucede com os homens [6]. Explicações que não foram, aparentemente, suficientes para impedir a associação feminista Capazes de apresentar uma queixa contra a campanha na Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género [7].

Quando a coisa envolve feministas, eu torço imediatamente o nariz [8]. O feminismo começou por ser um muito meritório movimento que, no início do século XX, conquistou o direito de voto para as mulheres e, mais tarde, no pós-guerra, obteve importantes vitórias no âmbito da igualdade de género na família e no trabalho e ainda nas questões ligadas à sexualidade, mas acabou por degenerar no feminismo que hoje temos, o qual, de repente, pretende anormalizar a sociedade.

O que pretendo eu dizer com «anormalizar a sociedade»? Posso elencar alguns temas que já vi serem grandes preocupações do feminismo hodierno: o significado político duma mulher fazer (ou retocar) a maquilhagem no autocarro [8], por exemplo; ou o tricô como questão feminista [8]; ou a sedução, mesmo que desajeitada, e o galanteio como arquétipos do machismo [9]; ou até mesmo a barbearia como símbolo da opressão do género feminino [10]! E, agora, a cereja no topo do bolo: uma curta-metragem como estereótipo, sexista, misógina, culpabilizante das mulheres e inadmissível! Não fazem por menos!!

Curiosamente, a única crítica legítima que vi ao filme foi feita — por um homem!… Diz João Gomes Almeida, no «Jornal i» [11], que, logo para começar, «não se sabe até ao dia de hoje […] qual foi o processo que ditou a escolha de duas alunas da Escola Profissional de Artes, Tecnologias e Desporto [para escrever o argumento]. Os outros estudantes da escola também concorreram? As outras escolas de publicidade, design e marketing também foram convidadas a enviar as suas ideias? Era importante o Ministério da Saúde esclarecer já estes pontos.» Depois, acrescenta ele que o slogan «é uma trampa, a ideia é tudo menos criativa e todo o filme vive de um amontoado de clichés sem nexo algum.»

Não sendo eu, ao contrário de João Gomes Almeida, publicitário, não posso pronunciar-me sobre a segunda parte das suas críticas. Posso apenas dizer que não gostei particularmente do filme e não acho a actriz Paula Neves particularmente boa — como actriz, deixem-me clarificar, antes que venham as feministas interpretar à maneira delas! De resto, aceito como válida a opinião do perito na matéria, que é João Gomes Almeida. Mas, em relação à primeira crítica dele, parecem-me, de facto, dúvidas muito legítimas.

O resto das críticas em que ele embarca, contudo, são as mesmas de Isabel Moreira, que ele cita, e do Bloco e das associações feministas, e são muito bem respondidas pelo realizador, numa só frase: «As pessoas perderam completamente a noção?» [12].

É o que parece. Factos sobre o tabaco (e, contra factos, não há argumentos): o consumo de tabaco está a diminuir nos homens e a aumentar nas mulheres; a iniciação faz-se habitualmente em idades jovens, onde também são mais as mulheres que experimentam do que os homens; e há mais homens a deixar de fumar do que mulheres [13]. Conclusão: o nosso público alvo, se queremos maximizar os efeitos da luta contra o tabaco, tem de ser as mulheres com menos de trinta ou quarenta anos.

Outro facto, sobre as famílias: 35% — a maioria — das famílias portuguesas são compostas por casais com filhos [14]. Portanto, um filme que retrata uma mãe, um pai e uma filha não é assim tão desprovido de lógica, tendo em conta que essa é a normalidade estatística. E aqui entra a tal «anormalização» da sociedade: se o filme fosse antes sobre um casal lésbico que recorreu à procriação medicamente assistida para ter uma filha, provavelmente estaria sanada a celeuma e ainda seria merecedor de elogios, pela coragem em colocar à vista uma realidade frequentemente varrida para debaixo do tapete por mentes mais conservadoras… Só que retrataria muito menos pessoas…

Outra crítica é que a mulher aparece a fazer «coisas de mulher» — cozinhar, arranjar-se, ser fotografada pelo pai em poses sexy e tratar a filha por «princesa». Esta só pode ser uma crítica feita por alguém que viu o filme sem prestar atenção. Há uma certa coerência interna nessa sequência, que até eu, que, como já disse, não apreciei o filme nem sou especialista em cinematografia, consigo perceber! A mãe cozinha com a filha, a mãe arranja-se com a filha, a mãe dança com a filha e a filha imita a mãe em tudo, enquanto o pai fotografa. Podia ser o pai a cozinhar, ou a pentear a filha? Podia, mas, como diz o outro, não era a mesma coisa: a ideia subjacente, penso eu, é de que a filha aprende com a mãe, imitando-a — e aprende, inclusivamente, a fumar. O público alvo são as mulheres, relembro; e é por isso que pôr o pai a fazer as mesmas coisas, neste caso, perderia metade do efeito. A mãe poderia fazer outras coisas? Possívelmente… Mas estas são as coisas mais corriqueiras que se fazem em família!

Quanto às princesas… Estou novamente como o realizador André Badalo: quem nunca chamou princesa a uma miúda de oito anos que se levante e que se acuse [12]

A sério: há tanta coisa com que se preocuparem — incluindo com todas as mulheres que vão morrer de cancro do pulmão — e vão logo indignar-se com temas de lana-caprina?!