Por Fábio Morgado


O objectivo do Mundial é promover a festa do futebol, com nações dos quatro cantos do mundo. Por isso, na nossa análise no artigo anterior [1], notámos que existe uma disparidade das culturas futebolísticas apresentadas. Se for para ter grupos muito similares a nível cultural, temos os torneios próprios de cada confederação, como o Europeu ou a CAN, por exemplo.

Falemos, então, do grupo E, composto pelo Brasil, pela Suíça, pela Costa Rica e pela Sérvia. O favorito neste grupo e, na verdade, para vencer o Mundial — o Brasil — apresenta um futebol muito apelativo. Tirando as coisas más que se ouvem a respeito do Brasil — com destaque para a corrupção —, o povo brasileiro é muito divertido e alegre; nunca conheci um que estivesse mal-humorado. A verdade é que já se trata de um aspecto cultural e nota-se na maneira da selecção jogar. Jogam de maneira alegre e criativa, que contagia os adeptos; daí que os jogadores e a selecção sejam uma das mais acarinhadas por adeptos de todo o mundo. O restante grupo é composto por selecções de nível mediano. Quando uso o termo «mediano», não pretendo fazê-lo em tom pejorativo, somente constatar a realidade: a Suíça não tem um historial, seja a nível internacional ou nacional (aliás, acho que o ponto alto do futebol suíço foi ganhar 5-0 ao Benfica na Liga dos Campeões, nesta época que passou); a Costa Rica pode valer pela solidez defensiva, tendo Keylor Navas (o guarda redes do Real Madrid) como a sua maior estrela; a Sérvia é um país muito recente (é independente desde 2006, pertencendo anteriormente à antiga República da Jugoslávia), pelo que as suas bases culturais futebolísticas ainda não estão bem estabelecidas.

No grupo F, composto pela Alemanha, pelo México, pela Suécia e pela Coreia do Sul, os actuais campeões do mundo têm um grande desafio pela frente. Não é que tenham um grupo forte para baterem, mas é mais um desafio espiritual: desde a concepção da Taça das Confederações em 1997, o vencedor deste torneio nunca ganhou o Mundial no ano seguinte. Dizem que é uma maldição; veremos se a Alemanha tem equipa para a quebrar. A Alemanha, não tendo uma grande estrela individual, foca-se muito no colectivo, com jogadores de topo em cada uma das suas posições. Não irá ter grande dificuldade neste grupo, em que irá enfrentar o temperamento latino do México, a frieza da Suécia e a disciplina asiática da Coreia do Sul.

O grupo G é composto pela Bélgica, pelo Panamá, pela Tunísia e pela Inglaterra. Os dois favoritos a passar este grupo são a Bélgica e a Inglaterra. O confronto entre ambos será muito equilibrado, visto que ambas as selecções têm uma cultura futebolística muito idêntica. Nove dos 23 convocados belgas jogam na Premier League e, deste nove, sete irão ser seguramente titulares — falo do guarda-redes Courtois, dos defesas Kompany e Vertoghen, do centro-campista Kevin de Bruyne e dos avançados Lukako e Hazard. Quem segue futebol reconhece que estes sete de que falei são seguramente jogadores do topo mundial e partilham a mesma cultura futebolística que a selecção inglesa. Aliás, para mim, estes sete têm mais qualidade juntos que os 23 ingleses, entre os quais, na minha opinião, só se destacam o avançado Harry Kane, o ala Sterling e o defesa direito Walker.

Por fim, o grupo H, composto pela Polónia, pelo Senegal, pela Colômbia e pelo Japão. Admito que tenho um carinho especial pelo Japão, apesar de nunca serem uma ameaça. É um povo para quem o futebol não é o desporto-rei, preferindo beisebol ou seu desporto tradicional — o sumo. Em campo apresentam exactamente o que se espera culturalmente: são muito tranquilos, competentes e organizados, mas infelizmente sem o talento e a capacidade física para se oporem a adversários mais culturalmente inclinados para o futebol, como é o caso da Colômbia, que tem muitos jogadores em colossos europeus, como o James Rodriguez no Bayern Munique ou o Cuadrado na Juventus — e até mesmo o Falcão no Mónaco. O Senegal tem como maior carta a sua capacidade física, que será suficiente para se bater com o Japão, mas não com a Colômbia e a Polónia — que tem, provavelmente, o melhor número 9 do mundo: Lewandowski.

Iremos ter umas semanas muito interessantes, em termos de futebol, e convido o leitor a tomar atenção aos detalhes extra futebol, onde poderá ver, mais que um conflito desportivo, um conflito cultural.


P. S.: Há dois anos, confidenciei com amigos e colegas que os favoritos a ganhar o Europeu eram a França e Portugal. Ambos foram à final e a sorte sorriu-nos. Este ano, quero confidenciar com o leitor que acho que os favoritos a ganhar são Portugal ou o Brasil. Se acertar no vencedor, vou arrepender-me de não ter feito uma aposta no Placard [2]