Por Fábio Morgado


Ontem, começou mais um campeonato do mundo de futebol [1, 2]. Nestas alturas, fico nostálgico, volto à minha infância e lembro-me duma das séries animadas que via nessa época. Não vou dizer que é a melhor de sempre, ou a mais marcante, mas, por alguma razão, ficou gravada na minha memória. Trata-se da animação intitulada «Les enfants du Mondial» [3] — as crianças do Mundial. Sendo eu, na altura, uma criança que gostava de bonecada, de futebol e de História, esta série era ideal para mim.

O conceito era muito simples: um jornalista já reformado contava aos seus netos as suas aventuras jornalísticas durante todos os mundiais. O enredo da história, basicamente, começava com um jornalista recém-formado em 1930 e ia até ao seu último Mundial, que seria o de 1994, ano em que esta série animada foi realizada.

A personagem principal, Brian Thompson, contava-nos os principais jogos de cada Mundial, a razão de serem tão marcantes e também falava dos jogadores que mais se destacaram.

Eu não me recordo de todos os episódios, mas posso partilhar com o leitor as memórias mais marcantes para mim e até o que aprendi, porque uma série baseada no futebol também ela apresenta factores de cultura futebolística [4, 5, 6].

Os primeiros episódios, se bem me recordo, foram sobre o mundial de 1930 no Brasil e o que mais me lembro foi o episódio sobre a final que o Uruguai ganhou ao Brasil em pleno Macaranã e como isso afectou o povo brasileiro.

Um dos episódios mais marcantes, para mim, foi sobre o nosso Portugal, mais concretamente o nosso pantera negra. Sim, nós, portugueses, tivemos um pantera negra antes da Marvel [7] — e o nosso também era especial. O episódio era sobre o jogo Coreia do Norte–Portugal, em que Portugal estava a perder 3–0 e, quando o Eusébio entrou, tudo mudou e o jogo acabou 3–5.

Existia sempre uma descrição do jogador e da sua importância em campo. Lembro-me de ter sido feito o mesmo para o Pelé. Aliés, o Pelé teve dois episódios só para si: um sobre a sua estreia e outro quando ganhou o Mundial pela terceira vez.

Aprendi também sobre as tácticas do futebol. Por exemplo, sobre o 4–1–2–1–2, em diamante: os jogadores do meio campo, que formavam o dito diamante, avançavam, fazendo passes curtos para não perderem a bola, e recuavam juntos para defender. Admito que foi algo que me ficou na memória, até porque quando jogo FIFA [8], é a minha táctica de eleição. Não me recordo muito bem, mas, se não me engano, este episódio do diamante foi sobre a Alemanha e um dos seus melhores jogadores de sempre: Beckenbauer.

Aprendi sobre História em si: aprendi sobre as duas Alemanhas — a Oriental e a Ocidental — que se confrontaram no Mundial de 1974.

A série nunca mais voltou a ser produzida, talvez porque, se seguirmos a lógica da vida humana, a personagem principal já em 1994 era muito idosa e já estava muito perto do fim. Mas, se usassem a lógica dos desenhos animados e o senhor pudesse ver mais mundiais, o que nos contaria?

No Mundial de 1994, o destaque seria a vitória do Brasil, que ganhou o título 24 anos depois.

No Mundial de 1998, o destaque seria para a França, que ganhou pela primeira vez o título, em casa, com vedetas como Zidane, Henry e Vieira.

O Mundial de 2002, não seria destacada nenhuma selecção, mas sim o génio de Ronaldinho Gaúcho, que liderou o Brasil até mais uma conquista.

No Mundial de 2006, seria mais um jogador destacado — Zidane, expulso no seu último jogo de sempre, na final contra Itália.

No Mundial de 2010, com certeza seria a Espanha e o tiki taka adoptado pelo seleccionador a merecer destaque, visto que muitos dos seus jogadores pertenciam a uma das melhores equipas de sempre — o Barcelona de Guardiola.

No Mundial de 2014, a derrota do Brasil por 7–1 nas meias finais, às mãos da Alemanha, ou, então, a derrota argentina na final, seriam o destaque.

Finalmente, neste Mundial de 2018, seria bom o destaque da equipa portuguesa: o Cristiano Ronaldo — melhor jogador — e o vencedor — Portugal…