Por Gustavo Martins-Coelho


O que vale é que, na sociedade actual, a indignação é efémera: volvidas duas semanas, já ninguém fala da campanha sobre o tabaco da Direcção-Geral da Saúde [1]. Valores mais altos se alevantam — ou então são valores igualmente rasteiros que se substituem uns aos outros… Às tantas, anda só tudo ocupado com o futebol…

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Mas eu tenho ainda alguns comentários a fazer sobre a curta-metragem da Direcção-Geral da Saúde [1]. Presumo que a Capazes tenha chegado a apresentar queixa na Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género e que esta siga os seus trâmites; e fico a aguardar calmamente o dia em que a Capazes apresentará queixa contra a lavandaria Lava Maria [2], por ser sexista remeter a Maria para a condição de lavandeira, mesmo que seja somente para fazer um trocadilho com a palavra lavandaria… Lava Mário é que devia ser!

Mas, dizia eu, apesar do despautério que foram as críticas das feministas em geral [1], há três críticas que a campanha da DGS merece e me parecem legítimas.

A primeira, fê-la o publicitário João Gomes Almeida, diz respeito à opacidade do processo que resultou neste filme e já falei dela na última crónica.

A segunda é sobre a pertinência desta campanha propriamente dita. As campanhas mediáticas como estratégia de combate ao tabagismo são um mundo muito nebuloso. Desde que bem estruturadas, nomeadamente quanto à intensidade e duração, e financiadas, podem ser efectivas na redução da prevalência de fumadores, mesmo anos após a sua suspensão. Contudo, este efeito é de difícil quantificação, tendo em conta a impossibilidade de isolá-lo dos doutras estratégias concomitantes [3]. Assim sendo, é bastante discutível se, por um lado, esta campanha tem a estrutura, a intensidade, a duração e o financiamento adequados a produzir os efeitos desejados e, por outro, de que forma será possível medir realmente o seu impacto.

A terceira crítica é sobre o conteúdo da campanha: o vídeo gira em torno da mãe e da filha. Feminismos à parte, esta é uma questão importante, na medida em que a filha foi exposta, durante anos, ao fumo dos cigarros da mãe. A protecção da exposição ao fumo ambiental tem as crianças como um dos grupos populacionais chave, na medida em que estão expostas ao fumo dos adultos, sobretudo se os pais forem fumadores. Assim, torna-se particularmente importante promover a cessação do consumo entre os fumadores que contactam diariamente com crianças, seja profissionalmente, seja no âmbito familiar. Em relação aos familiares, o suporte científico de qualquer intervenção é ainda controverso, sendo que apenas as entrevistas motivacionais e o aconselhamento intensivo têm demonstrado poder (talvez) ser estratégias com alguns resultados positivos [4].

Dito isto, tenho hoje tempo para falar do objecto do dia, coisa que não tem acontecido ultimamente. Falemos então da oxicodona. Nos EUA, a taxa de overdoses de opióides triplicou desde o ano 2000, sendo que um dos contributos para esse aumento adveio da comercialização dum medicamento para as dores chamado Oxycontin. Em 2007, o fabricante do Oxycontin, a Purdue Pharma, e três dos seus administradores, foram condenados a pagar uma multa de 634,5 milhões de dólares por enganarem os consumidores relativamente ao risco de dependência desse analgésico. Desde aí, a escala da crise de saúde pública causada pela utilização de opióides — tanto prescritos como ilícitos — só aumentou. A overdose ultrapassou as colisões na estrada como principal causa externa de morte nos EUA e, em 2014, os opióides estiveram envolvidos em mais de 28.000 mortes naquele país, estabelecendo um recorde. Curiosamente, Portugal é apontado pelos especialistas como um exemplo a seguir no combate a este e outros tipos de droga.