Por Fábio Morgado


Esta capa do jornal «A Bola» [1] é a minha preferida dos últimos tempos. Devo admitir que adorei aquele toquezinho onde diz: «ass: Les champions d’Europe» — os campeões da Europa.

É uma indirecta muito directa aos novos campeões mundiais — para «baixarem a bola», porque nós, Portugueses, os vencemos. A final do Euro 2016 está atravessada na garganta dos franceses, tal como a final do Euro 2004 nos está atravessada.

Pogba, numa das conferências antes da final, admitiu o que toda a gente já sabia: os franceses já davam a final do Euro por ganha. Mas, desta vez, seria diferente — dizia ele. No dia do jogo, a Nike, que patrocina o equipamento dos gauleses, lançou a camisa celebrativa do bi-campeão mundial, com duas estrelinhas, e, logo após o jogo, já havia jogadores com essa mesma camisa vestida no campo. De certeza que já havia conhecimento dessa camisa entre a equipa e os jogadores, antes do jogo, certamente já teriam interagido com a nova peça de vestuário. Ou seja: lição aprendida — zero.

Outro facto muito lamentável que se passou em campo e que também se passa muitas vezes nos jogos do Atlético de Madrid é o festejo do jogador Griezmann, em que este coloca o dedo polegar e indicador de uma só mão na sua testa, formando um ele, enquanto efectua uma dança. Parece ser um festejo inocente, mas a origem deste festejo é do jogo Fortnite [2], onde tal coreografia tem por objectivo apoucar outro jogador, quando este é abatido — e o ele feito com a mão simboliza a palavra inglesa «loser», ou seja, perdedor (também traduzível como «falhado», em boa verdade); de resto, um gesto muito usado pelos rufias das escolas norte-americanas — os denominados bullies — para agredirem psicologicamente as suas vítimas.

Penso não estar equivocado, quando afirmo que existem regras pelas quais devemos respeitar os adversários; existem inclusivamente inúmeras acções e campanhas contra o racismo e a xenofobia no futebol. Mas, repentinamente, tudo está bem, quando um jogador goza com os jogadores e adeptos adversários nos jogos da Liga espanhola e também agora no jogo mais importante do ano… A FIFA deixou passar em claro uma infracção que vai contra o desportivismo que representa (ou diz representar).

Não vale a pena tentar defender o jogador, porque ele aprendeu a dança através do Fortnite e ele sabe o que esta representa. Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele. Se eu me dedicasse, um dia, à dança do varão, dificilmente poderia alegar que não sabia que esse tipo de dança está associado a strippers

Enfim, a arrogância francesa é já um traço cultural da sua sociedade. Uso a palavra «sociedade» em vez de «povo» porque, do onze titular, só dois são franceses «de gema»; o resto é praticamente tudo de ascendência africana e o Griezmann de ascendência portuguesa — o avô dele foi um grande jogador do Paços de Ferreira, nos anos cinquenta do século passado. Eu acredito que os pais e os avós destes jogadores, quando emigraram para França, levaram os seus valores nacionais e culturais, mas a sociedade francesa contagiou a sua descendência.

Há uns dois artigos [3], «bati» muito no Messi e no Barcelona, mas salvaguardei que os admiro. Infelizmente, não é o caso com os jogadores franceses, em geral, embora também tenha noção que não são todos iguais.

Um exemplo é o N’golo Kante, um jogador que admiro. Quando foi ganhar milhões para o Chelsea, não comprou uma «bomba», como provavelmente a maioria faria; continuou a ir para o seu trabalho no seu Mini Cooper amolgado. Após o Mundial, surgiu uma história que — admito — que só me fez admirá-lo ainda mais: o facto de ele ser demasiado tímido para pedir aos colegas para tirar uma foto sozinho com o troféu, até que teve de ser um colega de equipa a impor-se, para que isso acontecesse.

Outro jogador de que também sou fã é o Mbappe, o novo prodígio mundial. Todo o dinheiro que ganhou a representar a selecção irá doar para instituições de caridade.

Espero que a sociedade francesa se redescubra nestes dois jogadores e se torne mais humilde.

Para concluir, apesar de não ser o maior fã dos gauleses, devo admitir foram justos vencedores, até porque apanharam os adversários mais complicados.

Depois da Espanha, que dominou o futebol europeu e mundial nesta última década, ao ganhar vários títulos consecutivos, agora será a vez da França: eles têm uma geração de ouro… negro!