Por Gustavo Martins-Coelho


Ando um bocado agastado com esta moda de ser saudável, não porque ache que não devemos sê-lo, mas porque acho que estamos a seguir o caminho errado para lá chegar — aliás, um caminho, nalgumas medidas, um pouco fundamentalista e de vistas curtas.

Aqui há uns tempos, a propósito duma minha ida ao Burger King [1], eu disse uma grande verdade, que parece esquecida, ultimamente: com conta, peso e medida, pode-se comer de tudo, incluindo comida rápida e todos aqueles pequenos prazeres gulosos, que tanto mal fazem!

Um exemplo de medida acertada é o imposto sobre o açúcar: além de aumentar a receita do Estado, que tanto precisa, levou a uma redução do consumo de açúcar entre os Portugueses em mais de cinco mil toneladas num ano [2]. Ninguém se sentiu atingido pessoalmente, não foi preciso introduzir proibições, nem ser coercivo: simplesmente, alterou-se a balança económica a favor de menos açúcar nas bebidas.

Já o oposto disto é o despacho que proíbe a venda de produtos considerados não saudáveis em hospitais e centros de saúde [3]. Este tipo de medida é totalitária e, em certa medida, infantilizadora do povo. Mas sobre isso já me pronunciei duas vezes [4, 5] neste espaço [6] e não voltarei a fazê-lo hoje.

Pelo contrário, hoje vou comentar a moda das reuniões saudáveis. A Organização Mundial da Saúde lançou um documento [7], onde define alimentos saudáveis que podem ser servidos no intervalo das reuniões, dos congressos, das conferências e dos demais encontros de trabalho — e alimentos que devem ser evitados. Incluem uma secção, até, para comemorar aniversários no local de trabalho, onde sugerem espetadas de fruta e saladas…

Ora bem, no meu dia-a-dia, faço uma alimentação saudável: variada e equilibrada. Não me empanturro de doces, nem bebo os tais refrigerantes carregados de açúcar, que a lei do açúcar está a combater com sucesso. Recomendo vivamente o mesmo tipo de atitude ao leitor.

Mas, repito, com conta, peso e medida, pode-se comer de tudo. Então, não é justo que, nos eventos especiais — um congresso anual, ou uma celebração de aniversário ocasional —, possa comer uma fatia de bolo de aniversário ou uma miniatura de bola de Berlim com creme, já que não o faço no dia-a-dia?… É que, senão, mais me vale começar a fazer do meu quotidiano um regabofe de doçaria, para depois ir pôr-me na linha nesse tipo de eventos!

Enquanto andamos ocupados com este tipo de estratégias de enfeite, que têm impacto relativamente reduzido e apenas mascaram a ausência duma real política de promoção da saúde — no Burger King, os refrigerantes, péssimos para a saúde, continuam mais baratos do que a água [1]; o brexit continua a avançar, aos solavancos, com as implicações para a saúde britânica e europeia que também já discuti aqui [8]; a pobreza continua a não ser verdadeiramente combatida e a desigualdade económica e de género continuam a ser enormes causas de doença [9]; a precariedade também prevalece e, com ela, a diabetes [10]; os passeios estreitos continuam a empurrar os cidadãos mais vulneráveis — as crianças em carrinhos de bebé e as pessoas que se deslocam em cadeiras de rodas — para a faixa de rodagem, aumentando o risco de serem atropelados [11]; e a lei do arrendamento criada pela senhora Assunção Cristas tornou o centro das cidades inabitável [12], promovendo com isso a suburbanização, que sabemos estar associada ao aumento da utilização do carro, a qual, por sua vez, aumenta o sedentarismo, a poluição, que causa doenças respiratórias, e reduz a rede social das pessoas, prejudicando a saúde mental. Estas são algumas das matérias que mereciam uma preocupação muito maior, mas não — vamos é, literalmente, tirar o doce às conferências, que isso é que faz toda a diferença!…