Nota do editor: este artigo é um resumo do texto de Simon Wren-Lewis, publicado no «Mainly Macro» [1]


Como pode um país tornar-se uma ditadura democrática?

Consideremos a Hungria. O primeiro-ministro Viktor Orbán controla directa ou indirectamente a comunicação social, os tribunais, o banco central e a comissão nacional de eleições, destruiu as organizações não governamentais e mantém a popularidade do seu governo através duma combinação de nacionalismo, diabolização da imigração e antagonismo de judeus e muçulmanos. Mas a Hungria tem eleições livres, logo é uma democracia. A oposição está tão fragmentada e fragilizada, que não é necessário eliminar ou manipular o acto eleitoral. Portanto, a Hungria é simultaneamente uma democracia com eleições livres, mas uma ditadura sem oposição, sem imprensa livre e sem pluralismo.

Nos EUA, Donald Trump tem a sua própria televisão — a Fox News —, lança constantes ataques à imprensa livre e tem aliados na CNN e noutras estações, fruto da busca pela imparcialidade por parte destas. O controlo da Fox News garante o controlo do Congresso: um senador que fale contra Trump vê a sua possibilidade de reeleição muito dificultada. Os outros países já perceberam que a diplomacia envolve agora fazer negócios com a família Trump, à semelhança da corrupção verificada na Hungria.

Trump não controla ainda os tribunais como Orbán, mas para lá caminha, com a próxima nomeação para o Supremo. E, enquanto Orbán se encontra actualmente a tentar encerrar uma universidade em Budapeste, Trump nomeou negacionistas das alterações climáticas para gerir o financiamento da ciência nos EUA…

Independentemente do domínio que Putin possa ter sobre Trump nos bastidores, com ou sem cassetes, Trump admira-o enquanto líder forte duma nação e vê na Europa um inimigo natural — o que explica o seu constante ataque ao continente.

A nível dos direitos humanos, a Hungria recentemente tornou ilegal o auxílio a imigrantes sem documentos. Trump separa os filhos dos imigrantes ilegais dos seus familiares como forma de resolver a «infestação» (palavras do próprio).

Os equilíbrios de poder da democracia norte-americana estão a falhar, um após o outro; e, ainda que o governo seja demasiado grande e complexo para um único homem o controlar totalmente, Trump não precisa de controlar todas as partes do governo: apenas precisa de controlar o que acontece. As únicas coisas que separam Trump de Orbán são o controlo total da comunicação social e a existência de oposição organizada. São estes os dois fios que sustêm a democracia pluralista nos EUA.

Há sinais preocupantes de que o apoio popular à democracia está a diminuir. O facto de Trump ter sido nomeado e apoiado por um dos maiores partidos políticos dos EUA é um sinal de que nem tudo vai bem na democracia norte-americana.

A ascensão da extrema-direita e de ditaduras democráticas já aconteceu no passado. Tanto nos anos 1930 como agora, as economias estavam arrasadas por recessões profundas e más políticas, fomentando a intolerância racial e xenófoba, que foi explorada pela direita como meio para evitar a redistribuição. A austeridade é uma desculpa para reduzir o Estado.

A questão da imigração é comum neste movimento em direcção às ditaduras democráticas, pelo que é importante abordá-la. A imigração não é uma questão de números. Menos de 5% da população húngara é imigrante. A preocupação com a imigração segue-se à cobertura noticiosa do tema; e os jornais que cada um lê são o melhor indicador do seu nível de preocupação com o tema. Com raras excepções, a questão da imigração é difusa e leva a um clima hostil que, no caso do Reino Unido, levou a um dos maiores erros políticos desta geração. O brexit vai redundar em mais declínio económico, que vai alimentar ainda mais a xenofobia. Está na hora de quebrar o círculo vicioso de declínio económico e político, dando prioridade à economia e parando de usar os imigrantes como bodes expiatórios.